Distração para Confinados

Sean GodleyDiante das restrições exigidas pelo confinamento, pela quarentena, pela reclusão, nada como nos ocuparmos com um joguinho de xadrez comentado. Vamos a alguns daqueles que são os melhores dos quais dispomos para nos servir. Há uns anos gravei um vlogue no que imaginava seria a postagem inaugural de uma série dedicada ao mais desafiador dos jogos pensados (sei que tem gente que vai dizer que o Bridge é que merece essa honra, mas, entre os jogos de cartas, prefiro o displicente “Bridge de botequim”, também conhecido como King). Diante de tantos e interessantes comentadores de xadrez com seus canais no YouTube, no entanto, acabei desistindo da ideia. Dentre os primeiros que acompanhei, e ao qual volto com frequência, está aquele do irlandês Sean Godley.

Ele é poeta, seguiu a carreira acadêmica, mas, agora vejo, atualmente mora no Canadá e trabalha como escritor técnico com foco em programas para computador. Godley é um aficcionado por xadrez e comentou o assunto com uma classe sem igual em seu canal entre abril de 2009 e novembro de 2014. Encerrou suas postagens, imagino, porque todos temos que cuidar da vida uma hora ou outra. Quando parou, seu canal somava 11 mil inscritos, se não me falha a memória, o que hoje não é nada, mas na época era muito.

Sean Godley comenta as obras-primas de Bob Fischer

Uma das razões para ele se distanciar do xadrez (ele tentou, sem sucesso, criar um site, o  “Killegar Chess”) é que, ainda que seja um excelente comentador capaz de fornecer bem pesquisados históricos e informações apuradas para cada partida que comenta, Sean jogava apenas em clubes pequenos e nunca se tornou um jogador profissional. Difere portanto de Mestres Internacionais e Grandes Mestres que vivem disso e que, seguindo a trilha inaugurada pelo irlandês, também partiram para a abertura de canais ou para trabalharem com sites de xadrez como o chess.com, o International Chess Club (ICC) e o chess24.com.

Suas postagens estão de qualquer maneira disponíveis em seu canal que hoje soma 13 mil seguidores depois de estar há 6 anos parado e sem nenhuma nova postagem. São do tempo em que cada vídeo não podia durar mais do que 15 minutos, o que levava Godley às vezes a dividir suas observações sobre cada partida comentada em duas, três partes. Para suas análises recorria ao Fritz, um programa de computador que seria superado por Komodo, Stockfish e AlphaZero. Vou indicar duas séries de suas muitas e ótimas playlists: a dedicada às obras primas do americano Bob Fischer e às do cubano José Raúl Capablanca. Godley tem séries curtas sobre armadilhas que funcionam em jogos descompromissados em modo blitz e uma dedicada ao sistema de Aron Nimzowitsch, autor de “Meu Sistema” e introdutor entre profissionais de uma abertura hipermoderna, a “defesa nimzoíndia”.

O melhor de Capablanca, aqui jogando contra Charles Jaffe em 1910

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About Marcos Pedrosa de Souza

Marcos Pedrosa de Souza é professor da Fundação Cecierj. Tem formação em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e em letras pela Universidade Santa Úrsula. É mestre e doutor em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi colaborador de O Globo e de outros jornais e revistas. Foi professor do IBEU, da Cultura Inglesa e da Universidade Estácio de Sá.
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