Rio de Janeiro Cosmopolita

78614595_436623343910998_5445188030681841664_n.jpgRuy Castro entrega um novo relato de fôlego sobre o Rio de Janeiro. Depois de “Chega de Saudade” (1990), “A Onda que se Ergueu no Mar” (2001) e “Carnaval de Fogo” (2003), o autor de “A Noite do Meu Bem” (2014) decidiu tirar o foco do Rio Janeiro dos anos 1940-50, assunto de seu trabalho anterior sobre o samba-canção, e se voltar para o começo do século XX. Passeia, como já se tornou hábito, por todas as áreas culturais com incursões ao mundo da música, das artes plásticas, do cinema, do teatro, do jornalismo, dos acontecimentos da alta e baixa sociedade, dos costumes, do futebol, da arquitetura, lembrando ainda as transformações físicas por que passou a cidade. 

Biógrafo por natureza, Ruy vai escolhendo figuras que se destacaram em seus campos de atuação e que se projetaram dali pra frente, muitas delas, ainda que não tenham nascido no Rio  de Janeiro, trilharam suas carreiras por aqui. Como é impossível citar todos, vamos a alguns nomes, cada um com uma contribuição importante para a narrativa de “Metrópole à Beira-Mar”: na música, Sinhô, Ismael Silva, Donga, Pixinguinha, Francisco Alves, Noel Rosa, Bidú Sayão, Elsie Houston, Vera Janacópulos, Villa-Lobos; nas artes plásticas, Oswaldo Goeldi, Ismael Nery, Cicero Dias, Cândido Portinari, Di Cavalcanti; no teatro, Procópio Ferreira, Leopoldo Fróes, Oduvaldo Vianna; no jornalismo, Irineu Marinho, Edmundo Bittencourt, Assis Chateaubriand; na ciência, Carlos Chagas, Einstein (em sua passagem pelo Brasil), Roquette-Pinto; na caricatura, Raul Pederneiras, Calixto, e o recordista em retratar melindrosas para as revistas Fon-Fon, Para Todos… e O Cruzeiro, que lhe fez o favor de fornecer a bela imagem que ilustra a capa de seu livro, J. Carlos (ou Jota, como era chamado). Ruy sabe fazer render seus protagonistas indiscriminadamente de João do Rio a Mano e Preguinho (filhos de Coelho Netto), pescando a todo momento passagens que transformam sua história da cidade naqueles tempos em um admirável romance da vida real.

No campo da literatura, o autor quer mostrar que o Modernismo, cuja efeméride de 100 anos os paulistanos se preparam para comemorar em 2022, já era moeda corrente no Rio de Janeiro cosmopolita em meados dos anos 1910, quando Monteiro Lobato ainda vivia às turras com seu Jeca Total enquanto apreciava a paisagem da fazenda Buquira, o seu ribeirão dos pássaros no Vale do Paraíba. Um prenúncio, portanto, da lufada que viria com Oswald e Mario de Andrade dentro da celebração da Semana de Arte Moderna na Paulicéia Desvairada. 

Minha mãe acha que o famoso biógrafo “inventa demais”. Mas é preciso entender que Ruy exagera para que tudo tenha graça. Seus “personagens” são todos sempre ilustradíssimos, versados em sete, oito idiomas, numa época em que ainda não havia formalmente curso de língua estrangeira e as primeiras universidades começavam a se firmar. De qualquer jeito, talvez até haja aí um pouco de verdade porque o escritor Lima Barreto, por exemplo, sabia, além do tupi-guarani, javanês, língua na qual se expressava com extrema desenvoltura especialmente se estivesse no Café de Java do proprietário Luiz Antonio Pereira, na rua do Ouvidor, 191 (espaço que ainda hoje guarda o belo busto de Mercúrio moldado em argamassa encimado em seu portal). Lima sempre passava por ali depois de sair do Bar Papagaio na Gonçalves Dias, acompanhado pela sua querida garrafa de Paraty, que carregava debaixo do braço pra tudo quanto é canto.Screen Shot 2019-12-06 at 10.30.40

Como todos sabem, Lima era alcoólatra e Ruy, que viveu na própria pele esse drama, não podia deixar de dar a devida e merecida proeminência a este que talvez tenha sido o nosso mais vanguardeiro escritor, que tratou de apresentar a essência do que viria com a geléia geral das prosas modernosas de Mario e Oswald de Andrade. O texto de “Metrópole à Beira-Mar” retrata bem o personagem contraditório de Lima, Ruy destaca o autor que detestava tudo (carnaval, futebol, cinema, Machado de Assis), mas que ainda que xenófobo, homófobo e misógino, sabia prestar atenção e manifestar sua simpatia às “vaporosas”, as coquettes resolvidas que marcaram a cena do Rio de Janeiro do período.

Ruy lembra e traz muitas delas para sua narrativa, anotando suas façanhas. Começa com as romancistas pioneiras Julia Lopes de Almeida e Carmen Dolores e se estende a Albertina Bertha, Mercedes Dantas e Chrysanthème (Cecilia Bandeira de Mello). Não esquece das poetisas  Rosalina Coelho Lisboa e Gilka Machado. Criadoras e suas criaturas que mereciam ocupar um primeiro plano entre os nomes de nossa literatura ao lado de autores menos comentados do período como Théo-Filho, Benjamin Costallat, (José do) Patrocinio Filho, Álvaro Moreyra e Orestes Barbosa.

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Trata-se de algo que já vem sendo conversado dentro das universidades de letras há algum tempo e que talvez precisasse de um livro como o do famoso cronista da página 2 da Folha de São Paulo para ganhar sua difusão entre um número maior de leitores. Ruy mostra que a literatura dos anos 1910, 1920, foi mais do que Olavo Bilac, Lima Barreto e João do Rio, que são as leituras ensinadas no Ensino Médio e cobradas no Enem. E esse passeio pela literatura, é importante que se diga, é realizada com a classe e a profundidade que só uma pessoa muito lida e dedicada como Ruy poderia fazer. 

Fundamental para os que serão tentados pelo trabalho do biógrafo da família Rodrigues e de Carmen Miranda a mergulhar depois desse “Metrópole à Beira-Mar” em uma literatura esquecida, menosprezada, é certamente flanar pela bibliografia que registra em detalhe a produção dos decadentistas e de outros próceres modernos do balneário carioca. Livros que não são editados há anos e que Ruy foi garimpar recorrendo aos seus parceiros dos sebos que frequenta e com quem conversa atrás de obras raras no Rio e em outras cidades brasileiras. Lugares como a Academia do Saber, o maior repositório de velharias impressas (livros, revistas, HQs, enciclopédias) de que se tem notícia, Letra Viva, Folha Seca, Mar de Histórias, Berinjela e outras. Só ficou esquecido o registro com a indicação do caminho para se chegar a criações como “Enervadas”, de Chrysanthème, e às obras de Roquette-Pinto, particularmente “Rondônia”, que o pesquisador apresenta como um segundo “Os Sertões”, de um escritor que transformaria Mario de Andrade em um antropólogo de livro de bolso (não é mesmo fácil esse Ruy Castro).

Há a citação de dissertação universitária, de livro em edição de seu respectivo autor e almanaques antigos. Estranhamente não há referência à Internet e suas hemerotecas como fonte de informação. Difícil imaginar hoje um pesquisador que não recorra a elas. Ninguém tem mais que perder seus dias no setor de periódicos da Biblioteca Nacional (e duvido que Ruy Castro passe por lá) vasculhando em suas jurássicas máquinas de microfilmes edições antigas de O Jornal, Correio da Manhã, A Noite, A Manhã, Gazeta de Notícias e de revistas como O Malho, Careta, Fon-Fon e outras publicações do período, que pontificaram na época. Como curiosidade, poderia ser lembrado que as gravações de Roquette-Pinto durante a expedição Rondon de 1912, por exemplo, estão disponíveis no SoundCloud a partir de um cd editado pelo Museu Nacional. 

No SoundCloud, gravações feitas por Roquette-Pinto

PDF do livro “Rondônia”

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“Metrópole à Beira-Mar” tem um epílogo que só aparece na página dedicada ao livro pela editora Companhia das Letras em seu site na Internet e que pode ser baixada para aplicativos móveis. Apresenta como um outro requinte adicional um podcast degustativo com trechos da obra lidos pelo próprio Ruy Castro. Uma boa viagem ao Rio de Janeiro dos anos 1920-30 e além. Quem passou por lá, como Nelson Motta, não teve do que reclamar.

Podcast com trechos de “Metrópole à Beira-Mar”

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About Marcos Pedrosa de Souza

Marcos Pedrosa de Souza é professor da Fundação Cecierj. Tem formação em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e em letras pela Universidade Santa Úrsula. É mestre e doutor em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi colaborador de O Globo e de outros jornais e revistas. Foi professor do IBEU, da Cultura Inglesa e da Universidade Estácio de Sá.
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