A Poeira Estelar de Woodstock

74265679_589119324960041_4717768128635863040_n.jpgFoi do motorista e hilário dublê de guia de excursão entre as cidades de São Francisco e Monterey que ouvi o comentário: “Woodstock foi realizado em prol de um ideário, festival de música de verdade no entanto foi o de Monterey”. Vou me abster de fazer uma avaliação comparativa entre as qualidades do Festival de Música Pop da costa oeste dos Estados Unidos, ocorrido em 1967, com o acontecido na fazenda de Max Yasgur durante aquela semana de agosto de 1969 há 50 anos atrás (mesmo porque muitos dos grupos que tocaram em Monterey apareceram também em Woodstock). Fico apenas com a observação do simpático guia que não deixa de ter seu fundo de verdade.

Para comentar o que de fato representou o espírito do festival de Woodstock, vou me valer de Camille Paglia, a aluna queridinha do recém-falecido Harold Bloom, de quem foi orientanda durante o doutorado na Universidade de Yale. Lembrei-me de Paglia em meio ao passeio pela obra ensaística de Susan Sontag, de quem Camille seria apontada por alguns como a sucessora (não acho que seja o caso, a despeito do trabalho dedicado da autora de “Vampes e Vadias” (Editora Francisco Alves, 1996)). Ainda que os escritos de Paglia sejam bem interessantes em razão dos ótimos temas que escolhe para abordar e da erudição com que os apresenta, entendo que as conclusões a que eles nos levam, a partir das digressões teóricas da autora, ficam a desejar, especialmente se comparadas em sua pertinência com o que Sontag conseguiu fazer com muito mais brilhantismo.

Mitchell interpreta sua versão intimista na BBC

Nas entrevistas e palestras, as coisas desandam de vez embaladas por seu jeito de falar corrido e sem pausas (já a vi defendendo a pena de morte como medida punitiva e dizendo que mulher que convida um homem para entrar em seu apartamento não pode querer se desculpar depois por qualquer coisa). Mas nas mais de 500 páginas de “Personas Sexuais” (Companhia das Letras, 1992), por exemplo, dá para se identificar uma Paglia erudita, ilustrada. As conclusões que tira do que comenta, cabe a cada um julgar em que medida procedem. O mesmo se repete no também interessante “Break, Blow, Burn” (Pantheon Books, 2005). Nele, Paglia analisa os versos de autores canônicos como Shakespeare, Blake, Yeats e contemporâneos como William Carlos Williams, Robert Lowell, Sylvia Plath, poetas aos quais recorria durante suas aulas na Universidade de Artes na Filadélfia, onde lecionou.

Para fechar “Break, Blow, Burn”, ela escolheu os versos de “Woodstock”, música composta por Joni Mitchell por ocasião do célebre festival. Defensora do ensino e da prática de leitura de poesia em voz alta em sala de aula, o que anda em desuso, Camille de início apresenta sua leitura particular e bem informada do poema. Comenta as referências ao Gênesis do poema e as ligações do trovador popular, que ganhou força nos anos 1960 na folk music norte-americana, com a tradição da poesia escrita. O cerne de tudo é, no entanto, uma abordagem que contrasta a famosa versão feita por Crosby, Stills, Nash & Young, que aparece no único trabalho de estúdio do grupo, o excelente “Déjà Vu”, com a registrada de forma intimista pela própria Mitchell no seu álbum “Ladies of the Canyon”, ambos os discos lançados em 1970.

Segundo Paglia, um poema confessional, melancólico e que retrata o festival a partir de uma visão pessimista foi transformado em um hino revolucionário celebratório pelo quarteto. Para a escritora, CSN&Y tratam os versos sem senso crítico, festejando de forma ingênua a contracultura hippie. Advoga assim a necessidade fundamental de uma voz feminina para interpretar o poema e apagar seu lado de congraçamento entre machos fazendo com que as sutilezas da letra pudessem desta forma serem percebidas.

Curioso é que Joni Mitchell, que teria tido caso com pelo menos dois dos integrantes do grupo (Crosby e Nash), fez a música especialmente para ela ser cantada durante o evento e queria estar no palco de Woodstock com eles. Já tinha mesmo apresentado a composição ao lado dos músicos e só não foi para Woodstock com o quarteto porque tinha agendada a gravação de um programa de TV na data e não haveria tempo hábil para retornar. Sabemos, porém, que nem sempre o autor é a pessoa mais indicada para interpretar sua própria obra. Fica a critério do leitor portanto a faculdade de exercer a liberdade que o ato da leitura propicia e decidir se as considerações de Camille Paglia são pertinentes ou não.

A versão de CSN&Y no álbum “Déjà Vu”

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About Marcos Pedrosa de Souza

Marcos Pedrosa de Souza é professor da Fundação Cecierj. Tem formação em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e em letras pela Universidade Santa Úrsula. É mestre e doutor em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi colaborador de O Globo e de outros jornais e revistas. Foi professor do IBEU, da Cultura Inglesa e da Universidade Estácio de Sá.
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