Début Flipeiro

FLIPEI 1

Foto de Cauê Ameni

Depois de anos acompanhando a Festa Literária Internacional de Paraty à distância via Internet, fui finalmente conferir in loco como acontece a movimentação do simpático encontro entre escritores e leitores. Cheguei em um momento em que a Flip, em sua 17a. edição, confirmou sinais de mudança que vinham se anunciando há um tempo. Em entrevista dada ao jornal O Estado de São Paulo, a inglesa Liz Calder, que já morou no Brasil e tem paixão por Paraty ainda que viva hoje no interior da Inglaterra, uma das criadoras e organizadoras do evento desde a sua primeira edição em 2003, comentou que a falta de recursos fez com que sumissem das rodadas da mesa principal estrelas internacionais que só viajam de primeira classe ou executiva e exigem hospedagem em hotéis caros. Assim não temos mais autores como Margaret Atwood, Elisabeth Roudinesco, Ian McEwan, Richard Dawkins, Enrique Vila-Matas, Salman Rushdie, Gay Talese, que causaram frisson quando de suas passagens por nossa quermesse literária no passado.

Se as mesas do programa principal, que acontece no auditório da Matriz (vem sofrendo queda em seu público pagante que tem optado compreensivelmente por evitar a sala fechada com seus exaustores barulhentos e optado por assistir às palestras na arejada tenda ao ar livre), deixaram de ser a atração mais importante, os encontros das casas e espaços parceiros da Flip cresceram de maneira exponencial (uma amiga, que vai todo ano, comentou que nunca viu Paraty tão cheia). O debate mais concorrido desta 17a. edição, por exemplo, foi sem sombra de dúvida aquele que reuniu na noite de sexta-feira Glenn Greenwald, Gregório Duvivier, Sabrina Fernandes, Alceu Castilho e Sérgio Amadeu no barco pirata das editoras independentes (Sabrina também teria uma conversa concorrida na manhã de sábado no mesmo lugar com o filósofo Vladimir Safatle).

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Ancorado de forma muito apropriada na margem esquerda do rio Perequê-Açu e reunindo editoras menores como Autonomia Literária, Boitempo, Ubu, Patuá, Relicário, entre uma infinidade de outras, o barco pirata da Festa Literária das Editoras Independentes (Flipei) virou um point obrigatório. Em seu convés oferecia livros em uma grande bancada e, em sua parte superior, palestras acompanhadas pelo público no gramado em frente. Nem a truculência dos bolsonaristas, com seus rojões, morteiros, som nas alturas, conseguiu comprometer o debate com o jornalista do The Intercept que chegou em cena cinematográfica, sendo ovacionado ao surgir inesperadamente pela foz do rio escoltado em uma lancha.

Flip map

Além da embarcação da Flipei, havia ali, bem próximo, o Barco Holandês que da mesma forma ofereceu bate-papo com autores. Ao longo da margem esquerda estavam situadas outras tendas com palestrantes, como a do Sesc, mais antigo ocupante do Areal do Pontal e que apresentou intensa programação com leituras, oficinas e intervenções artísticas. O onipresente Sesc tinha outros três espaços, uma tenda no bairro do Caboré, uma casa no Centro Histórico e uma unidade no Largo de Santa Rita.

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A exposição do caminhão-museu itinerante “Conflitos: Fotografia e Violência Política no Brasil 1889-1964” ficou também instalado no Areal. Trata-se de um projeto do IMS em associação com o departamento de história da UFMG, com curadoria de Heloisa Espada e consultoria de Heloisa Starling, Ângela Alonso e Ângela Castro. O caminhão-museu reúne sala de exibição (em que se projeta uma animação sobre Canudos), monitores interativos e um ambiente para leitura. A exposição resultou em um livro belíssimo assinado por Heloisa Espada que era vendido na Casa do IMS. Só não veio na bagagem por causa de seu peso. O caminhão do IMS/UFMG estava na companhia da Kombi da Penguin/Companhia das Letras, da biblioteca-motorizada do Sesc e da livraria ambulante da Flipei montada em um ônibus escolar (daqueles norte-americanos) que circula por cidades exibindo e vendendo livros de editoras menores em seu interior.

A curadora desta edição da Flip, a viúva do jornalista Otávio Frias Filho, Fernanda Diamant, registrou no programa que saiu em caprichada brochura a luta para organizar um evento diversificado. “Montar uma festa como esta, compondo um espaço de múltiplas linguagens, voltado ao pensamento, à escrita, à arte, à crítica, à educação, é complexo”, escreveu depois de informar que teve a intenção de retomar temas euclidianos e atualizá-los. O que de fato aconteceu. Na palestra de abertura, por exemplo, Walnice Galvão se dedicou a falar sobre o autor escolhido como tema da Festa sem se esquecer de fazer uma ponte com o presente. Durante sua palestra, comentou a historiadora, uma das mais destacadas estudiosas de Euclides: “Enquanto o processo de modernização capitalista não terminar e não se passar para outra etapa histórica, “Os Sertões” tem que ser lido todos os dias para se entender o que está acontecendo com os pobres do país nesta guerra sem quartel que a nação promove”. Citou para embasar sua argumentação o genocídio de jovens negros na periferia de São Paulo, a militarização das favelas no Rio e os desastres de Mariana e Brumadinho.

A historiadora identificaria ainda nos movimento dos sem terra uma similaridade com o que foi a luta de Canudos e mencionou dois assentamentos que confirmam isso a partir do próprio nome com que se fizeram conhecidos: Nova Canudos, em Goiás, e Antônio Conselheiro, no Mato Grosso. São evidências da busca de  práticas que se assemelham às insurreições milenaristas e messiânicas como aquelas descritas por teóricos como Engels, Max Weber e Hobsbawn, segundo Walnice. Com a diferença, de que, enquanto os canudenses tinham uma atitude passiva na opção por viverem reclusos, os sem-terra invadem espaços do poder em um movimento ativíssimo.

Como resultado desta militância que encontramos em algumas palestras como a de Walnice e ainda na de Ismail Xavier, as falas afirmativas se fizeram presentes, mas confesso que não me tocaram tanto, embora tenham encontrado público cativo. Mais instigantes, e também claro sinal afirmativo, se mostraram os grupos de slam com seus happenings de improviso que aconteceram em espaços ao ar livre todos os dias e na Casa Globo no final da tarde de sábado. Os poetas dos coletivos de slam, que surgiram e vêm fazendo sucesso na Flip já há algumas edições, procedem a uma recuperação do espírito do rap, mas apresentam como elemento novo a opção de muitos deles pela publicação de seus textos-falados em livros.

Dentro da maratona de atividades, deu tempo ainda para conhecer pessoas como a empresária Samara Krauss da editora de livros Saber e Ler, de Campinas, que participava da Festa como empreendedora. Como ela, a Flip tem reunido donos de editoras pequenas que descobriram um ambiente de troca atraente para discutirem seus negócios na Casa Publishnews. O mesmo se deu na Casa Libre & Santa Rita de Cássia que reuniu autores, editores, ilustradores, tradutores e distribuidores, para pensarem a cadeia do livro. Vários, intensos e diversificados encontros para quem tem paixão pela escrita e por esse “objeto transcendente que podemos amar do amor táctil que votamos aos maços de cigarro”, como diz o poeta.

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About Marcos Pedrosa de Souza

Marcos Pedrosa de Souza é professor da Fundação Cecierj. Tem formação em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e em letras pela Universidade Santa Úrsula. É mestre e doutor em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi colaborador de O Globo e de outros jornais e revistas. Foi professor do IBEU, da Cultura Inglesa e da Universidade Estácio de Sá.
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