Conversa de Livraria

Sérgio 6Sérgio Rodrigues, seguindo uma salutar praxe da qual é adepto e que está se tornando corriqueira, repetiu no lançamento de seu novo livro, “A Visita de João Gilberto aos Novos Baianos” (Companhia das Letras, 2019), o que havia feito com o “Viva a Língua Brasileira” (Companhia das Letras, 2016): um bate-papo antes da tradicional distribuição de autógrafos. No Rio de Janeiro, a conversa aconteceu na livraria da Travessa de Botafogo e teve mediação de Álvaro Costa e Silva – o Marechal, como é tratado em tom jocoso pelos amigos-, editor do saudoso Caderno Ideias (do igualmente saudoso Jornal do Brasil) e que hoje goza do privilégio de ser colunista da célebre página 2 da Folha de São Paulo (por onde passaram Cláudio Abramo, Clóvis Rossi, Otto Lara Resende, em uma lista de ilustres, e onde o jornalista marca presença em alternância com Ruy Castro).

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Álvaro lembrou a trajetória do autor que, com esta obra, soma três livros de contos (“O Homem que Matou o Escritor”, de 2000, e “Sobrescritos”, de 2010, são os anteriores), três romances (“As Sementes de Flowerville”, de 2006, “Elza, a Garota”, de 2008, e “Drible”, de 2014), além de duas seletas de escritos sobre a língua portuguesa e seus usos (“What Língua is Esta?”, de 2005, e “Viva a Língua Brasileira”, de 2016). Procedeu ainda a uma curta apresentação do novo lançamento que reúne, como nos antigos LPs de vinil, lados A e B.

O Lado A abre com o conto que dá título ao livro, que surgiu sugestionado por “O Concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro” (Editora Ática, 1982) de um xará do autor, o merecidamente muito cultuado escritor Sérgio Sant´Anna (professor de Sérgio Rodrigues nos tempos do curso de jornalismo na UFRJ dos anos 1980). Sempre achei que o encontro de João Gilberto com os Novos Baianos tivesse se dado no apartamento do grupo de músicos em Botafogo, mas para a imaginação do escritor tudo aconteceu no sítio da turma do “Acabou Chorare” em Campo Grande. “A Fruta por Dentro” é a “segunda faixa” e a inspiração por aqui é a Capitu em sua entediante noite de núpcias com o personagem casmurro de Machado. O escritor destaca a voluptuosidade da enigmática personagem do Bruxo para a alegria dos que não cansam de se entreter com a dubiedade da personagem de olhar dissimulado. Fechamos o lado A com “Vas Preposterum”, “um conto mórbido satírico” sobre a Inconfidência Mineira na definição de Sérgio Sant´Anna. De inspiração assumidamente bocagiana, deve-se adiantar.

Sérgio 9Ao elencar alguns tópicos para o bate-papo, Álvaro tocou na discussão sobre metalinguagem presente no Lado B do livro nas seções “Conselhos Literários Fundamentais”, “Cenas da Vida Zooliterária, Volume 1” e, esparsamente, nas tuitadas de “Breve História de Alguma Coisa”. Passagens em que há aquilo que Sérgio Sant´Anna classificou como “um verdadeiro tiro nas oficinas de literatura”. Sérgio Rodrigues acha que estamos tendo uma badalação excessiva em torno da carreira de escritor, que segundo ele não é essa maravilha toda, o que lembrou a célebre frase de Truman Capote que dizia que, ao te dar o dom da escrita, o Todo Poderoso te entregava também um chicote. Além da glamourização da prática, Sérgio Rodrigues mencionou as festas literárias em excesso e a bajulação dos autores que são tratados como estrelas. Não opinou sem ser questionado se a condição de diva deveria ser prerrogativa exclusiva das damas de salto alto do futebol.

Fechamos a noite comentando a “Terceira Margem” do livro, uma seção à parte com o folhetim “Jules Rimet, Meu Amor”, escrito para ser publicado seriadamente no Le Monde francês durante a Copa do Mundo de 2014. Foi quando a conversa migrou para nossas conquistas e fracassos, os campeonatos mundiais, a Taça erguida em 1970 e depois roubada e derretida, o vergonhoso 7×1 contra a Alemanha e a usurpação da camisa canarinho por uma facção política.

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Muitos amigos do escritor presentes. Mànya Millen foi e aproveitou para representar dois ausentes: Arthur Dapieve, que estava dodói, e Alfredo Ribeiro, preso no trabalho.  Na fila para as dedicatórias e selfies, Luiz Henrique Romanholli trouxe o prestigio do rock brasileiro oitentista, Joaquim Ferreira dos Santos, Arnaldo Bloch e Cora Rónai, o cumprimento e reverência dos ex-colegas de redação. Completando a festa, os amigos da faculdade, da vida e a família celebrando o talento do supercraque das letras.

Fotos de Clarissa Rodrigues, Daniel Turela e Carolina Landi

Ps. Correção – Tarra tão perdidão na companhia do narrador durante a visita ao sítio dos Novos Baianos que não dei a devida atenção a esta passagem: “O pessoal comentava com o João como tinha sido legal uma outra vez que eles se encontraram, parece que num apartamento na cidade.”  Sérgio Rodrigues lembra também que o sítio ficava em Jacarepaguá, o que põe por terra toda a minha fantasia sobre o “Swing de Campo Grande”.

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About Marcos Pedrosa de Souza

Marcos Pedrosa de Souza é professor da Fundação Cecierj. Tem formação em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e em letras pela Universidade Santa Úrsula. É mestre e doutor em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi colaborador de O Globo e de outros jornais e revistas. Foi professor do IBEU, da Cultura Inglesa e da Universidade Estácio de Sá.
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