Uma Onça Chamada Regina

Casé 2Regina Casé anda uma onça com os brasileiros que só pensam em deixar o país. É verdade que o Brasil não está nada fácil. A vontade que se tem é a de sentar no meio-fio e chorar. Preocupada com nossos intrépidos humores, a atriz está dando o seguinte recado aos que estão desistindo da jobiniana Terra Brasilis. Sua recomendação é que experimentem dar um pulinho até a gélida Boston enfrentando os gênios irascíveis das autoridades de imigração americanas para começar a sentir os dissabores de estar em território estrangeiro.

Melhor do que isso talvez seja procurar o que há de mais interessante por aqui para nos lembrarmos do tanto que somos apegados às coisas brasileiras. E a literatura, entendida em sentido lato e entrelaçada aos lugares por onde circulamos diariamente, é, com certeza, um caminho para que percebamos o desvario de certas atitudes. Durante as quase duas horas de espetáculo do “Recital da Onça”, que estreou em uma igreja em Salvador, passou pelo Festival de Teatro de Curitiba, e que agora faz temporada de 12 apresentações no teatro Oi Casa Grande no Rio de Janeiro, a atriz ganha a platéria para a sua causa cantando o samba-enredo da vitoriosa Mangueira, relembrando uma canção como “Luar do Sertão” que parece de domínio público (ainda que Catulo da Paixão Cearense reinvidique a autoria do tema que ficou conhecido através de João Pernambuco) e, em parceria com Hermano Vianna, visitando textos com os quais não cansamos de nos deliciar.

Ana Fernanda Matos, ou Capicua, rapper portuguesa da trilha que abre o espetáculo

Para cada cidade em que se dará a encenação, tem sido escolhido um autor que se relacione diretamente com a cultura local. Em Salvador, a opção foi por Jorge Amado  com seu “Jubiabá”, em Curitiba, Dalton Trevisan (“Moreno Ingrato”) e Paulo Leminski (trecho de “Agora é que São Elas”). Aqui no Rio, Alberto Mussa (“A Primeira História do Mundo”). Sugestionado pelo título do espetáculo e pela menção ao nome de Mussa, estava na expectativa de ouvir alguma coisa sobre a mitologia indígena que associa a onça à criação de tudo que é fundamental para os índios brasileiros. Mussa, no entanto, cuidaria da narrativa sobre a fundação da cidade do Rio de Janeiro. O bote surpresa viria com o “Meu Tio, Iauareté”, um conto de Guimarães Rosa que desconhecia e em que as descrições de uma onça são um show de preciosismo do autor de Cordisburgo.

Iauareté, a “cachoeira das onças” e “lugar em que viveu uma gente onça”, segundo registra a Wikipedia, toma com propriedade todo o fim da peça em um show de virtuosismo de Regina Casé que se metamorfoseia neste animal típico das florestas tropicais (a espécie está em vias de extinção e o maior contigente de exemplares se encontra em nosso território). Rosa chega depois de termos acompanhado o querido Mário de Andrade em suas andanças pelo país em seu “Turista Aprendiz” e Clarice Lispector em uma crônica maravilhosa em todo o seu cru, veraz e triste encantamento. É uma pena que Lima Barreto tenha ficado de fora desse encontro de grandes. 

A própria Regina Casé disse que estava com saudade do teatro, lugar em que se sente em casa. Depois de 25 anos longe dos palcos e dedicada à TV, a atriz trouxe companheiros de sua equipe televisiva para a produção do espetáculo. Além da criação assinada com Hermano Vianna, o “Recital do Onça” tem direção geral do marido da atriz e diretor de seus programas, Estevão Ciavatta. Reatou a parceria com Hamilton Vaz Pereira (direção cênica) com quem fez as peças que inauguraram e consagraram sua carreira nos palcos. Contou ainda com Luiz Zerbibi (cenário), Claudia Kopke e Gilda Midani (figurino) e Renato Machado (iluminação), entre outros em uma equipe numerosa e dedicada.  

Link para a página da ONG Instituto Onça-Pintada

A bela fera de perto

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About Marcos Pedrosa de Souza

Marcos Pedrosa de Souza é professor da Fundação Cecierj. Tem formação em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e em letras pela Universidade Santa Úrsula. É mestre e doutor em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi colaborador de O Globo e de outros jornais e revistas. Foi professor do IBEU, da Cultura Inglesa e da Universidade Estácio de Sá.
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