A Copa do Mundo em Treze Edições

Captura de tela inteira 19072018 193758Os franceses se sagraram bi-campeões mundiais ao levarem, com todo o mérito, a fraca Copa do Mundo de 2018, que se encerrou na Rússia no último domingo. Derrotaram na final o bom time da nação separatista da Croácia que, depois de 5 Copas, fez a sua primeira decisão de mundial. Ficamos nas quartas de final perdendo para os belgas, que acabaram em terceiro lugar à frente dos ingleses. Seleções que tradicionalmente sempre se apresentam como cadidatas ao título foram caindo uma atrás da outra. A Alemanha, depois de perder para o México e para a Coréia do Sul, ficou ainda na fase de grupos e Argentina, Portugal e Espanha não passaram das oitavas de final.

Foi a minha 13a. Copa do Mundo. Acompanho o campeonato mundial de futebol desde 1970, ano que marcou a estreia das transmissões dos jogos ao vivo pela TV. Tinha 6 anos recém-completos na Copa da Inglaterra de 1966 e não recordo de ouvir os jogos pelo rádio. O interesse pelo futebol iria crescer em seguida ao Mundial da Inglaterra, quando meu pai passou a me levar ao Maracanã. Comparecíamos todo domingo e vez ou outra às quartas-feiras para o jogo noturno. O domingo de futebol para o tijucano começava cedo. Por volta das 14h30, ele já estava saindo de casa a pé em direção ao Maracanã. Ainda existiam as preliminares e eventualmente até mesmo jogos de garotos dos times de dente-de-leite, antes da rodada dupla.

Cheguei a ir algumas vezes nas cadeiras especiais cedidas por conhecidos que tinham seu assento cativo próximo à tribuna de honra. Dali, me lembro de ter visto Pelé fazendo uma de suas partidas pelo Santos. Quando não estava no Maracanã, seguia as rodadas da noite pelo rádio de pilha em um quarto que dividia com meu irmão menor em um apartamento de fundos na Conde de Bonfim (número 512, próximo ao Tijuca Tênis Clube), onde era acordado todas as manhãs às 6h30 com o apito da fábrica da Brahma.

Foi de lá que acompanhei uma decisão entre Botafogo e Vasco, com Gérson e Jairzinho em campo, que levou o time da estrela solitária ao bi-campeonato carioca em junho de 1968. Também no radinho ouvimos o milésimo gol de Pelé em um jogo entre Santos e Vasco da Gama, no dia 19 de novembro de 1969 (curioso que o goleiro Andrada, por sua determinação e garra para evitar o feito do nosso maior jogador, também saiu como herói no lance central do célebre jogo).

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Ainda neste quartinho, em uma pequena TV preto e branco Philco, vi a seleção de 70 balançar várias vezes as redes da Tchecoeslováquia e da Romênia, em dois daqueles jogos inesquecíveis. O mesmo ritual se repetiria contra o Peru e o Uruguai (dois jogos que, não sei por que, não tenho lembranças muito vivas). Já o sofrido jogo contra a Inglaterra, com um único gol de Jairzinho depois de uma belíssima virada de Tostão e passe de Pelé, foi assistido na casa de meu tio Hugo na Conde de Itaguaí, assim como a goleada na final contra a Itália.

Depois do tri-campeonato, o futebol se consolidou como uma religião nacional. A comemoração do título levou uma multidão no final da tarde daquele domingo 21 de junho de 1970 à rua Conde Bonfim em um carnaval que se estendeu noite adentro. Algo parecido com a festa que lotou o Champs-Élysées em Paris e as ruas de Zabreb, agora em 2018. A fascinação e entusiasmo pelo esporte fez com que meu pai incorporasse o ritual dos Mundiais à sua rotina. Toda Copa do Mundo, ele reservava o período dos jogos para tirar as suas férias, mesmo porque ainda não havia essa história de interromper qualquer atividade para se acompanhar os jogos do Brasil. E de qualquer jeito, a intenção era ver todos os jogos do mundial.

Captura de tela inteira 19072018 195855Para cada Copa seguinte, era comprada uma TV exclusivamente para marcar o acontecimento. A de 74 foi a primeira vista em uma TV a cores, mas se converteu em decepção. Havia jogadores da jornada de 1970 (Jairzinho, Rivelino, Piazza) e o reforço de Paulo César Caju. Ademir da Guia que era a grande novidade e que deveria ser a estrela do time, no entanto, só apareceu em campo em um único jogo. Ficamos em 4o. lugar e o time do técnico Zagalo não convenceu. As copas de 78, 82 e 86, foram reservadas para o gênio de Zico, Júnior, Sócrates e Falcão. Para todo Flamenguista, estes campeonatos se transformaram em momentos de puro futebol arte, daqueles que davam prazer de ver ainda que sem os resultados triunfais de antes.

A partir da década de 1990, os títulos voltariam a aparecer, entretanto, o interesse decaiu. Romário e Ronaldinho Gaúcho foram dois craques que muito me agradaram, mas Ronaldo Fênomeno, Adriano Imperador, Cafu, Robinho, nunca me entusiasmaram, a despeito de suas eventuais qualidades. Dunga como técnico azedou o que restava de interesse pelo selecionado. A geração de Neymar, Gabriel Jesus, Philippe Coutinho e mesmo Firmino e Douglas Costa, deixam um pouco de confiança para os próximos desafios da seleção em mundiais.

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About Marcos Pedrosa de Souza

Marcos Pedrosa de Souza é professor da Fundação Cecierj. Tem formação em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e em letras pela Universidade Santa Úrsula. É mestre e doutor em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi colaborador de O Globo e de outros jornais e revistas. Foi professor do IBEU, da Cultura Inglesa e da Universidade Estácio de Sá.
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