É a primeira vez em uma eleição que aprendo, e muito, com um dos postulantes ao cargo máximo da República. Nunca isso havia acontecido comigo anteriormente. Tenho acompanhado as palestras de Ciro Gomes em Harvard (aquela escolinha em que se formaram Barack e Michelle Obama), na Sorbonne, em Oxford, e me instruído. Fico contente em ver uma pessoa que quer refletir sobre a realidade brasileira com conhecimento e vivência para isso. Do contrário, a corrida presidencial seria o tédio sem fim de sempre.
Vejamos, por exemplo, uma das intervenções dele em um fórum em Oxford (parceria da tradicional instituição com a London School), que teve a participação do professor Thimothy J Power, brasilianista e catedrático da universidade. Curioso observar como Oxford dá valor a conhecer e debater com políticos brasileiros de uma maneira que não parece presente entre os nossos acadêmicos. Thimothy Power realiza a cada novo pleito um levantamento, através de entrevistas com todos os candidatos brasileiros sufragados a cargos eletivos, tendo como objetivo saber o que eles pensam sobre o mundo e o que imaginam que os levou até ali.
Em sua palestra, Ciro Gomes faz, para minha surpresa sem nenhuma anotação (tudo de improviso, portanto), uma descrição detalhada sobre a formação do estado brasileiro, de suas instituições e as transformações por que passaram desde o Império. Primeiro colocado no concurso para a Faculdade de Direito do Ceará, de onde saiu formado aos 21 anos, ele foi professor de direito constitucional e recorre a seus conhecimentos de então, bem como os adquiridos como professor visitante na Faculdade de Direito de Havard, para dar conta desta tarefa.
Aprendi com ele a distinção entre direito consuetudinário e direito positivo e suas respectivas influências na formação dos estados norte-americano e brasileiro. Ciro, que teve André Lara Resende entre os presentes em sua palestra (o filho de Otto Lara Resende também faria uma apresentação no Fórum), entrelaça esta explanação com fatos históricos, mostrando ainda seu lastro de erudição e vivência da história político-econômica brasileira.
Palestra de Ciro Gomes em Oxford
Como complemento, e em alguns momentos contraponto, à fala de Ciro Gomes, André Lara Resende discute, apenas hipoteticamente, qual seria o caminho se tivéssemos seguido a intuição de Eugênio Gudin em lugar das diretrizes do nacional desenvolvimentismo de Roberto Simonsen no Brasil dos anos 1950. Essa é parte da discussão do livro “Juros, Moeda e Ortodoxia – Teorias Monetárias e Controvérsias políticas” (PortFolio Penguin, 2017), resultado da permanência por dois anos de Lara Resende na Universidade de Columbia nos Estados Unidos.
Quando de seu lançamento, o livro foi objeto de grande polêmica entre economistas que, depois de artigos publicados no jornal Valor, se reuniram em um encontro no Insper. Nele, se chegou à conclusão que estas especulações, bem como políticas econômicas em geral, não são uma ciência exata com a qual se poderia auferir um resultado antecipado. Ou seja, Lara Resende pode ser um entusiasta de Gudin, mas é mera especulação saber se suas ideias teriam levado o Brasil em uma direção que trouxesse mais benesses para a população de nosso país.
Durante o momento de debate da palestra do filho de Otto Lara, foi falado sobre a novidade que promete transformar finalmente a Internet em uma ferramenta democrática e que acarreterá uma mudança radical nas relações humanas. Esperemos que o blockchain (que ganhou a tradução de “protocolo da confiança”) cumpra o papel inovador e ousado que sua tecnologia prenuncia.
A intervenção de Ciro Gomes e André Lara Resende pode ser complementada pela leitura da obra “A Moeda e a Lei” (Zahar, 2017), recentemente lançada por Gustavo Franco, que toca em mais detalhe obviamente, em um livro que beira as mil páginas, nos mesmos tópicos comentados no fórum. Diferentemente de Ciro e de maneira similar a André Lara, Franco privilegia o aspecto econômico (ainda que lembre que a unidade monetária não funciona sem amparo jurídico, como indica o título) discutindo o período que vai de 1933, momento da criação de nossa primeira moeda fiduciária, ao Brasil de 2013. Comenta ainda um pouco do momento posterior.


