Mamãe 8.0

Ana Maria-001Pasmas, as pessoas têm dificuldade em acreditar, mas é isto mesmo. A Lu Vieira, cabeleireira oficial da família há mais de três décadas, chegou a perguntar incrédula:

– É aniversário de 80 anos?

Ao que eu tive que confirmar de maneira inapelável: – Exatamente.

Sim, contrariando todas as evidências, eu ainda corto meu cabelo e minha mãe acaba de virar uma octogenária. Segue com a programação de costume: Theatro Municipal, Bridge Clube, cinema, teatro. De minha parte, só gostaria que ela tivesse uma maior disposição para os esportes aquáticos e que, como a mãe da Cora Rónai, desse suas braçadas em piscinas ao redor do mundo. Ela, no entanto, se limita à musculação leve, bicicleta, caminhada e ao pilates.

Sempre foi uma pessoa ativa. Uma das lembranças mais antigas que tenho, data da época em que começou a tirar sua carteira de motorista. Do quarto de minha avó materna, Bertha Teixeira de Freitas, na fase em que ela já estava lutando contra a fase terminal do câncer que a levou muito cedo, via, pela janela que dava de frente para a rua Conde de Bonfim, minha mãe estacionar o Jeep na volta de sua prática de direção. Dele, passaria a dirigir uma Rural Willys bege e branca com a qual cumpria a rotina de carregar os cinco filhos pra cima e pra baixo.

Depois da Rural Willys, seguiria se ocupando da espinhosa tarefa de cuidar de 5 filhos em um Gordini e uma Brasília. Não tinha tempo ruim. Nos levava, sempre no comando da direção, à escola, à praia na Barra, à fazenda, em Silva Jardim, à casa em Petrópolis. Certa ocasião cismou que eu deveria jogar tênis e me matriculou na escolhinha do professor Manuel no Tijuca Tênis Clube. Comprou o uniforme branco completo, uma raquete Procópio de madeira (as Wilson, de aro, só chegariam alguns anos depois), tênis branco com solado apropriado e íamos no final de tarde fazer nossa aulinha. Acho que ela mesma tinha interesse pelo esporte de Thomas Kock, Guillermo Vilas e Jimmy Connors, uma vez que era comum jogarmos frescobol.

A minha identificação sempre foi maior com minha mãe do que com meu pai. A reciprocidade também parece ser verdadeira, pois, e isso não é nenhum segredo na família o que me deixa à vontade para falar, sou o filho predileto. Nunca dei trabalho, é bem verdade. Para começar, foi o melhor de todos os cinco partos. Ela conta que a encaminharam à sala de parto da maternidade Teresa Ramos em Lajes, Santa Catarina, na manhã do dia 6 de julho de 1960, e de lá ela retornou em seguida ao meu nascimento andando até o quarto, sem ajuda alguma.

Compartilhamos ainda o gosto pela cultura francesa. Um interesse que é consequência do fato de minha mãe ter sido educada no colégio Sagrado Coração de Jesus, uma escola que ainda existe fisicamente, embora esteja desativada há um bom tempo, no alto da Boa-Vista, e onde aprendeu francês desde cedo. Se tornou, por isso, fluente no idioma. Depois que minha avó Bertha e meu avô Francisco de Mello Pedrosa mudaram da casa no Alto para a Tijuca, minha mãe foi completar o ensino médio no Instituto de Educação nos anos dourados da escola normalista.

27 Ana

Onde está Ana Maria Pedrosa?

Com os filhos encaminhados, decidiu cursar a faculdade de Letras na PUC, iniciou uma pós-graduação na UFRJ, e passou a dar aulas no Instituto Brasil-Estados Unidos e na Faculdade da Cidade. Não sei se foi casual, mas acabei seguindo o mesmo caminho. Já trabalhava há um bom tempo como jornalista quando decidi mudar o rumo de minha vida profissional, indo contra seus conselhos e recomendações. Escrevia para O Globo e fazia, assim como outros colegas do jornal, um curso preparatório para o exame de proficiência da Universidade de Michigan no IBEU.

Pepete e Ian

Fla-Flu na melhor tradição 

Além do curso preparatório, o IBEU oferecia cursos variados sobre Shakespeare, literatura americana e cadeiras técnicas sobre língua inglesa (gramática, fonologia/fonética, pedagogia) no seu Teacher Training Course. Fiz muitos deles. Certa vez, encontrei com o coordenado Steve Berg na biblioteca do IBEU, estava atrás dos livros e da fortuna crítica de Edgar Allan Poe para um curso em que abordaria as detective stories. Além de dar aulas, Steve também fazia parte do departamento acadêmico da instituição e seria a pessoa que, depois de eu concluir o curso na Santa Úrsula, me convidaria a entrar para o IBEU. Seu curso sobre Poe, Conan Doyle, Dashiell Hammett, não coube em minha agenda, mas minha mãe e minha professora do preparatório do Michigan, Cyrla Elefant, fizeram e adoraram.

IMG_0466

Rosali Erlich, companhia pra toda viagem

Cyrla, assim como Deta Eleen Quarless, uma jamaicana que foi minha professora quando ainda era bem garoto, Rosali Erlich, Eduardo Serra, Regina Cocking, Paulo Henriques Britto, Sonia Torres, Marta Caram, Ivone Vieira, Roselene Nigri, Doraliz Negueira, Maria Lúcia, estão em uma lista grande de amizades que fez no IBEU. Com a aposentadoria passou a dispor de mais tempo para viajar. Em seguida às comemorações do aniversário, não perdeu tempo e embarcou para conhecer Grécia e Turquia, dois lugares onde nunca esteve.

IMG_0740-002

Avatar de Desconhecido

About Marcos Pedrosa de Souza

Marcos Pedrosa de Souza é professor da Fundação Cecierj. Tem formação em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e em letras pela Universidade Santa Úrsula. É mestre e doutor em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi colaborador de O Globo e de outros jornais e revistas. Foi professor do IBEU, da Cultura Inglesa e da Universidade Estácio de Sá.
Esta entrada foi publicada em Ana Maria Pedrosa. Adicione o link permanente aos seus favoritos.

1 Response to Mamãe 8.0

  1. Avatar de Rosali Erlich Rosali Erlich disse:

    Adorei Marcos! Foi mto bom ler esse artigo, e assim conhecer a Ana um pouco mais, e tb relembrar fatos da nossa convivência que eu já tinha esquecido. Bjos

    Curtir

Deixe um comentário