Brix e Mark Edward Smith

Captura de tela inteira 30012018 220219Era um compositor que tinha apenas a própria voz como companheira, ignorando todos os outros instrumentos, no que lembra seu conterrâneo Stephen Patrick Morrissey. Certamente por isso, os dois cantores-compositores de Manchester conseguiram, ao longo de suas respectivas carreiras, escrever músicas com qualquer instrumentista que cruzasse seus caminhos. Mas Mark Edward Smith foi recordista no número de parceiros diferentes com quem trabalhou. O resultado era sempre caótico e invariavelmente muito bom. Isso até ele ser derrubado pelo uso de bebida e drogas bem além do aconselhável (“The road of excess leads to the palace of excess”, chegou a cantar em referência a Blake e Morrison).

Ele só precisava de uma frase aleatória (“Eat Yourself Fitter”, “Australians in Europe”, “Lucifer Over Lancashire”, “Welcome to the US 80´s/90´s”, “Oswald Defense Lawyer”, “Hit the North”, “I Hear Your Telephone Thing Listening In”, “Rocking Records/Rocking Records/Rock the Record/ Rocking Records/The Guy´s Rock Record”, “The Birminghan School of Business School”, “The Book of Lies”) e uma banda criando uma atmosfera sonora qualquer ao fundo, pra martelar, modulando a voz ao seu gosto, seus mantras que se sucediam uns aos outros, sem cessar.

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Falam muito sobre a forma ditatorial com que comandava o grupo. A assinatura das composições, no entanto, era democraticamente feita como pouco se vê no mundinho do rock`n´roll. Mark E. Smith sempre aceitou com desprendimento a co-autoria de músicas que traziam de forma inconfundível sua marca. Brix Smith, por exemplo, que quando conheceu a banda se iniciava de forma rudimentar nas artes musicais, não custou a dividir a autoria das composições, assim como faziam todos os outros instrumentistas. É certo que o casamento com Mark Smith a consagraria como parceira mais assídua. Musicalmente falando, Brix, entretanto, não era Yoko Ono, e a presença de uma americana arejada livrou o grupo de ser uma reedição mais sombria, se é que isso é possível, do Joy Division.

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Mark Smith no Canecão, em julho de 1989, em clique de um devoto da época

Apaixonada pela música britânica a ponto de mudar o nome para Brix por causa de “Guns of Brixton”, do Clash, Laura Elisse Salenger conheceu Mark E. Smith após um show do Fall em sua cidade, Chicago, no começo dos anos 80. Casaram e “conviveram” por uma década. Ele saindo para o Pub às 10 da manhã e ela ficando em casa cuidando dos gatos. Não apenas isso, obviamente, porque gravaram juntos 11 dos melhores discos do Fall, correram o mundo com shows e fizeram um genial espetáculo-performance com a companhia do dançarino Michael Clark.

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Colega de turma de Donna Tartt, Bret Easton Ellis e Jonathan Lethem no curso universitário de escrita criativa, Brix resolveu, ainda que de maneira um tanto temporã, colocar em prática o que aprendeu em sua curta passagem na juventude pelo Bennington College. Escreveu o livro memorialista “The Rise, the Fall and the Rise” (Faber & Faber, 2016). Nele fala não apenas em sua relação com seu primeiro marido e o envolvimento dos dois com o mundo da música, mas também de seus outros casamentos (foi casada também com o violinista clássico Nigel Kennedy e vive hoje com o empresário de moda Philip Start, com quem tem uma loja em Londres) e de sua formação entre Los Angeles e Chicago.

É certo que foi Brix que caiu fora de seu casamento com o líder do Fall. Isso aconteceu porém depois de ela ter notícia de que ele andava atrás de meia-dúzia de mulheres, inclusive de uma de suas amigas e da namorada lésbica desta. Tudo ao mesmo tempo agora. Por isso, em julho de 1989, Mark Smith chegou ao Brasil desfalcado de sua guitarrista e backing vocals. Vinha fazer apenas um show no Canecão dentro de um destes projetos organizados para gastar dinheiro sem explicação já que o público da banda por aqui era bem próximo de zero.

Ao biólogo e dublê de jornalista Carlos Albuquerque coube a tarefa de cobrir a coletiva e de entrevistar Smith. Ainda que imerso na febre de sua reggae night, Calbuque andava siderado com o “Bend Sinister” (1986), que não escapara ao seu radar. Escalado para o trabalho, ele foi, porém, solidário com o fã que vos digita, àquela altura ouvindo sem parar “The Frenz Experiment” (1988) e “I am Kurious Oranj” (1988). Fez a gentileza de me indicar para as duas tarefas, se ocupando apenas com uma hilária resenha que escreveu sobre a apresentação. Fiquei tão devoto, que dois anos depois, em janeiro de 1991, estaria me mandando de Londres para Manchester, única e exclusivamente para ver o segundo e último show do Fall de minha vida. Grande festa poder repetir junto com Mark Smith, dentro do prédio gótico da prefeitura da cidade, o grito de guerra de “White Lightning”.

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No Le Meridien (hoje, Hilton Copacabana) em companhia do gravador e do caderninho da repórter-fã Marcinha Pedrosa

Tinham acabado de sair os álbuns “Extricate” (1990) e “Shift-Work” (1991), já que a banda seguia lançando um disco atrás do outro. Teríamos depois deles alguns dos meus CDs favoritos do grupo: “Code Selfish” (1992), “The Infotainment Scan” (1993), “Middle Class Revolt” (1994) e “Cerebral Caustic”  (1995; este  último, de novo com Brix “Don´t Call me Darling” presente). Em meio à clave do frenesi virtuosístico recitativo, aparecem nesta fase pelo menos 3 músicas lentas belíssimas: “Edinburgh Man”, “Bill is Dead” e “Rose”. A partir dos anos 2000 parei de acompanhar, perdi o interesse. Só fui ter o entusiasmo despertado novamente, quando Damon Albarn convidou Smith para gravar a faixa “Glitter Freeze”, no álbum “Plastic Beach”, do Gorillaz. A subsequente apresentação ao vivo na edição de 2010 do festival de Glanstonbury, com Mick Jones e Paul Simonon no palco, foi um acontecimento.

Ao longo da carreira, Mark Smith gravou, segundo as minhas contas, 30 discos de estúdio (entre 1979 e 2018), em 41 anos de carreira, até nos deixar no dia 24 de janeiro.  Na edição especial integralmente dedicada ao Fall no seu Ronca-Ronca, Maurício Valladares colocou Smith e a banda em relação a qual, segundo John Peel, todas as outras deveriam ser comparadas, ao lado de figuras tão díspares quanto Cartola e Bowie. Está em ótima companhia.

A agora senhora Brix Smith-Start se reuniu recentemente aos irmãos Paul e Steve Hanley no Brix and the Extricated. Paul foi baterista de primeira hora do Fall (ainda que tenha abandonado o grupo logo). Baixista classudo, Steve foi fiel parceiro de Mark E. Smith por 19 anos, assinando incontáveis músicas. Antes de Brix, já havia escrito também um relato biográfico sobre sua convivência com a banda de Manchester intitulado “The Big MidWeek – Life Inside the Fall” (Route Publishing, 2016). Mais uma leitura obrigatória para os apreciadores do lendário grupo e de seu líder.

Ps. Para saber em o que Mark E. Smith andava pensando quando escreveu cada uma de suas letras, existe o The Annotated Fall, página em que cultuadores do cantor, replicando o que comumente só acontece com escritores, conjecturam colaborativamente sobre o assunto.

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About Marcos Pedrosa de Souza

Marcos Pedrosa de Souza é professor da Fundação Cecierj. Tem formação em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e em letras pela Universidade Santa Úrsula. É mestre e doutor em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi colaborador de O Globo e de outros jornais e revistas. Foi professor do IBEU, da Cultura Inglesa e da Universidade Estácio de Sá.
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