Felinolinos e o VeteriMário

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Bello Antônio pelas lentes da cunhada Vani Garcia

Charles Darwin deve ter certamente classificado a espécie como uma praga em função de sua inacreditável velocidade de multiplicação e da razão em que ela se dá. Mas o motivo de eles estarem por tanto tempo por aí sendo paparicados, mimados, afagados com insistência, em lugar de caçados como ratazanas, é que, desde pelo menos o Antigo Egito, o mulherio, e mesmo muitos que fogem a esta classe, se derretem de amores por suas boas e contidas maneiras (quando não são importunados) e por suas feições graciosas.  Um ano se passou e chegou a hora de procedermos a uma atualização sobre a vida dos gatolindos de Felinolândia.

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Ainda que eles agradem e cativem a todos, especialmente quando pequeninos, foi necessário recorrer a algum artifício para conter a proliferação extratosférica que se insinuava. Fez-se imperioso então convocar a entrada em cena da pessoa do VeteriMário. Sempre conto essa história porque ela é para mim o exemplo maior daquilo a que nós nos referimos como vocação.

Parte da família de meu pai tem, digamos, uma certa inclinação campestre, agrária, rural. Foi por isso que, lá pelos idos de 1970, dois de meus tios e meu avô se juntaram a meu pai para comprar uma fazenda. Escolheram uma propriedade na cidade de Silva Jardim, no Estado do Rio de Janeiro, há duas horas e meia aqui do Rio. E assim, toda sexta-feira de noite, um Gordini partia da rua Conde de Bonfim na Tijuca em direção à Praça XV para cruzar a Baía de Guanabara em uma precária balsa que fazia a ligação com Niterói antes da inauguração da ponte que nos levaria com mais rapidez à terra por onde Darwin passeou quando esteve no Brasil. No microscópico carro, para os padrões de hoje, viajavam meus pais, seus 5 filhos e uma ou outra prima. Como? Não faço a menor ideia. Depois de atravessar a Baía ainda era necessário rodar por pista pavimentada até Rio Bonito e, a partir daí, em estrada de terra até a fazenda do Rosário.

Gordini-001

Chegava-se lá por volta de 12h30, 1h da manhã. Isso quando o carro não enfrentava muita lama no meio do caminho em dias de chuva, derrapando de um dado para o outro na pista e, vez ou outra, atolando. Logo no começo, ainda não havia luz elétrica na fazenda e tudo era feito ao lúmen intermitente de lampiões de querosene. Só no dia seguinte teríamos luz gerada por um motor a diesel que ficava no estábulo, distante da sede. E ainda assim só até a meia-noite, quando ele era desligado. Mas isso pouco importava, porque um dos passatempos na fazenda era acordar às 4h30 da manhã para assistir no curral à ordenha do gado. Meu avô sempre levava uma garrafa térmica com café para misturá-lo com o leite fresco e quente recém-tirado do ubre das vacas. O café-da-manhã era tomado de pé no estábulo, entre um mugido e outro.

Gude-Gude

Gude-Gude com o Macaco ou o Rabamoça (façam suas apostas)

E é aqui que entra a pessoa de um de meus primos, o VeteriMário, como é tratado por todos. Pois muito bem. A sede ficava em um platô. Lá em baixo tinhamos o imponente estábulo, com as rezes do gado leiteiro circulando nas proximidades em um dos pastos cortado por um sinuoso córego aguardando para a função da madrugada do dia seguinte. Por vezes, havia uma ou outra vaca, não sei se profana ou não, que, por estar prestes a gerar uma nova cria, era deixada em um cercado do curral. Nestas ocasiões, um dentre todos os primos, em uma passagem digna de filme italiano, trocava sua confortável cama por um lugar no estábulo para, em uma eventualidade, ajudar o pobre animal a trazer ao mundo mais uma criatura.

Fazenda

Hoje o VeteriMário, cujo filho Felipe e sua nora Lilian acabam de lhe dar a sua primeira neta, Laura Isabela, cuida do sorriso de cavalos de corrida. O leigo talvez estranhe e diga em sua ignorância ignara que nunca ouvi falar em dentista de cavalo. Pois saibam que eles existem e viajam para tudo quanto é canto para deixar em perfeita ordem os dentes das cavalgaduras. Apenas desta maneira os céleres puro sangue podem exibir com graça seu esplendoroso relincho e se comportarem adequadamente durante suas desabaladas correrias nas disputas nos jockey clubs. Não sou Guimarães Rosa, mas garanto que cavalo sorri e mais do que isso (o que talvez seja motivo de surpresa para muitos): o distinto quadrúpede bebe com alegria até cerveja, caso lhe ofereçam (um dia conto essa outra história).

Mas voltemos aos nossos felinolinos do começo. Pois bem, nosso veterinário-por-vocação teve que esquecer um pouco o sorriso de cavalos de corrida e subir a serra para cometer o ato ignóbil, mas imperioso, de castrar todos os pobres gatitos. O surpreendente é que, apesar de tudo, a guerra continua com o Temer, o Manda-Chuva, que segue atormentando e tirando a paz de seus semelhantes. De qualquer jeito, a última prole veio em um sortimento vário em sua diversidade. Teve o Michelzinho e a Marcella, filhotes do Temer, a Raposinha, filha do Raposão (outro agregado que aparece de vez em quando), e Tonico Junior e Jojo (em homenagem à Joanna Maranhã, pois apesar de pequenina caiu no poço e sobreviveu), filhotes do Bello Antônio. Da primeira leva, ficaram com a família o Fofis e a Kiki, crias do Bello Antônio.

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PiriCat escondida no estofo do sofá com medo do ataque de uma gambá ao seu filhote

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About Marcos Pedrosa de Souza

Marcos Pedrosa de Souza é professor da Fundação Cecierj. Tem formação em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e em letras pela Universidade Santa Úrsula. É mestre e doutor em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi colaborador de O Globo e de outros jornais e revistas. Foi professor do IBEU, da Cultura Inglesa e da Universidade Estácio de Sá.
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4 Responses to Felinolinos e o VeteriMário

  1. Avatar de Margarida Margarida disse:

    Muito bom, quantas lembranças deliciosas da linda Fazenda do Rosário. Tantas festas juninas, seu Jeremias, dona Rosa e a grande prole deles. Não podendo esquecer do nosso vizinho Renato com seus tantos filhos também. Dos passeios na cidades e das cachoeiras lindas de lá.

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  2. Amei. Quero ver mais dessas fotos de Silva Garden. Vc tem? E quase juro q esse cavalo na foto é o Macaco.

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  3. Avatar de Marcio Marcio disse:

    Ah! Silva Garden… quanta lembrança boa! Quanta saudade também. Dona Rosa, seus doces de banana, abóbora e mamão verde. O leite cedinho no curral e as festas juninas citadas pela Guida, demais. Obrigado Kiko!marcio

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  4. Pingback: Nipo-Brasileirismo | Marcos Pedrosa de Souza

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