Dias Bárbaros pela Costa Brasileira

No verão de 1979, que antecedeu a minha entrada na faculdade, embarquei com amigos e conhecidos em uma expedição que correu toda a costa brasileira. Do Rio de Janeiro até São Luiz do Maranhão, chegando mesmo a ir um pouco além em visita a Alcântara. Fomos pingando de cidade em cidade, sempre acampando e dormindo de forma improvisada em qualquer lugar. Em uma faixa de terra, entre o mar e um rio, em Conceição da Barra (vila de pescadores no Espírito Santo), na praça principal na entrada de uma igreja em Caravelas (Bahia), em um quarto com janelas debruçadas sobre a Baía de Todos os Santos, na Casa do Estudante em Salvador,  à beira de uma cachoeira em São Cristovão, Sergipe, na Praia do Francês, em Alagoas.

Fazíamos a própria comida de maneira improvisada, ou pagávamos por uma refeição em qualquer birosca e, em Canoa Quebrada, Ceará, experimentei, pela primeira e única vez, a mais deliciosa muqueca de arráia da minha vida, preparada pelas mulheres de pescadores que nos acolheram. Lá alugamos uma casa com redes, assim como já havíamos feito em Arraial d´Ajuda, em Porto Seguro. Quem comandou esta expedição nordestina foi o José Fortes. Era ele quem indicava os caminhos e atalhos, muitas vezes por vias vicinais de terra pessimamente conservadas, já que todos queriam que a viagem ficasse próximo à costa a maior parte do tempo.

Como todos sabem, o Zé Fortes é quem coordena a agenda, elabora e orienta as excursões do grupo Paralamas do Sucesso. Tenho para mim que o êxito da viagem se deveu em grande medida à capacidade organizacional do futuro empresário. Durante todo o trajeto, quem comandava a caravana indicando todas as rotas em época em que não existia GPS, era ele. Não me recordo de termos ficado perdidos em momento algum (à exceção dos desencontros entre os três carros que faziam o percurso: duas Brasílias e um Passat).

Eu sabia tocar rusticamente os três acordes de Asa Branca e um dos programas da caravana era parar para ouvir o Fernando Brandão, hoje professor na Universidade de Berklee, em Boston nos Estados Unidos, fazer belíssimos improvisos esbanjando aquele talento dos grandes virtuoses em cima da base simplória que repetia no meu saudoso violão Di Giorgio (que encerrou o seu périplo neste mundo depois de ser completamente destruído pelo Márcio França, que pulou a janela da Casa do Estudante da Bahia e o encontrou em repouso no chão). Lembro que em uma sessão em uma praça pública em um desses lugarejos remotos em que havia uma escola de música, as pessoas que assistiam aplaudiram o flautista com grande entusiasmo.

Fomos pela costa, mas voltamos pelo interior do Piauí, passando pela curiosa região de Picos, cujo clima ameno, por se tratar de região serrana, contrasta com o lugar mais quente do planeta Terra: a cidade de Teresina. O ponto alto da viagem já tinha ficado para trás, foi o carnaval de Olinda, comparável em sua espontaneidade ao de todo lugar pequeno, como o de Ouro Preto. Teve ainda as belas paisagens das praias de Fortaleza e de Natal e a escapada até a Feira de Caruaru para conhecer de perto o que tinha visto em “Deus e o Diabo na Terra do Sol”. Foram os seguintes os aventureiros além do José Fortes e de Fernando Brandão: Ricardo Marins e seu amigo Zé (não recordo o sobrenome), Pedro e Carlos Cavalcanti, Maurício Novelo (também conhecido como Terror), Chiquinho (outro que não me lembro o sobrenome), Marcio França e minha irmã Marcia Maria Pedrosa.

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About Marcos Pedrosa de Souza

Marcos Pedrosa de Souza é professor da Fundação Cecierj. Tem formação em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e em letras pela Universidade Santa Úrsula. É mestre e doutor em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi colaborador de O Globo e de outros jornais e revistas. Foi professor do IBEU, da Cultura Inglesa e da Universidade Estácio de Sá.
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2 Responses to Dias Bárbaros pela Costa Brasileira

  1. Avatar de marcinhapedrosa marcinhapedrosa disse:

    Foi mesmo um siacabation sem fim essa viagem. Mta música nordestina no áudio do carro (aprendi a gostar de Geraldo Azevêdo e tal).

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  2. Avatar de MARCIO FRANÇA MARCIO FRANÇA disse:

    Muito bom Kiko, foi isso mesmo. Vc me fez lembrar de ótimas passagens dessa, que foi, a mais importante viagem da minha Vida. Um mes e meio de muito aprendizado, pra vida toda.
    Um dos mais duradouros, com certeza, a importancia das amizades!
    E cá estamos nós hoje, falando disso.
    Valeu amigo, belo depoimento.
    Forte abraço.

    ps: sem desmerecer o talento do Zé, ele era o décimo de onze irmãos, e os dois irmãos logo acima dele tinham feito viagens pro nordeste em anos anteriores, rolaram as “dicas”.

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