No Intenso Agora Chinês

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Foto do distrito de Yuzhong na província de Chongqing. Autor: Jonipoon

É a terra dos contrastes. Das megalópoles, do trem bala, do Crazy English, do HiPhone, do shopping hi-tech com bugiganga xingi-ling e das feiras de ambiência medieval, onde é possível comprar um animal vivo e pedir que o feirante faça o abate na hora. Seis vezes a população do Brasil, quatro a dos Estados Unidos. Gente pra burro. Imaginem oferecer a este mundão de pessoas, moradia, educação, serviço de saúde, segurança pública e os confortos da modernidade e da pós-modernidade.

Em um cenário infinitamente menor como o brasileiro, vemos a coleção de descaminhos em todas essas áreas essenciais a que a péssima e criminosa administração pública tem nos levado. Na nossa tiranocracia plutocrática que ainda vai ter de se esforçar muito para chegar a uma democracia, o que temos é um exercício de delinquência que tem comprometido todos os setores considerados fundamentais para o bem estar da população e para uma vida minimamente decente.

Oferecendo aos seus cidadãos tudo o que é regalia para poucos no Brasil (não de graça, mas a valores honestíssimos), a China segue vivendo o seu boom econômico. Um PIB que consegue se manter em boa e positiva taxa de crescimento mesmo com as turbulências internacionais. Vem puxando um grupo grande de economias do planeta a reboque, entre elas a brasileira. O país é comandado pelo Partido Comunista, mas o que se prega naquele que seria o pensamento único em seu território é um socialismo que reconhece a propriedade privada com restrições.

Para os que acham que o riquixá ainda é o meio de transporte mais comum, basta dar uma olhada em uma garagem de um dos gigantescos e modernos conjuntos habitacionais chineses para se contemplar um mar de Porsches, Audis e BMWs. Imóvel próprio, no entanto, só obedecendo a regulamentações específicas (embora até o aluguel já faça parte da vida chinesa há alguns anos; detalhe: com uma ausência de burocracia que deixará o inquilino brasileiro a se perguntar se vive na Rússia stalinista). De uma perspectiva geral, o que temos é um exemplar único de capitalismo de estado, que cada vez mais incorpora a iniciativa privada à sua realidade.

O historiador inglês Martin Jacques em palestra no TED sobre a China

É verdade que temos limitações à liberdade de expressão em ambientes públicos, o que para quem vai a manifestações de rua em frente à Alerj no Rio de Janeiro e enfrenta a polícia do senhor Sérgio Cabral, com suas balas de borracha e bombas de gás lacrimogênio, não é nenhuma novidade. Não há também acesso livre a alguns dos nichos da Internet. São bloqueadas as páginas do Facebook (o que para muitos talvez fosse até motivo de alegria), do Google e de outras ferramentas que operam com desenvoltura e ganhos astronômicos as trilhas da era digital. Para contornar estes entraves é possível instalar uma rede em casa com IP fora do país e se comunicar com o planeta sem que o governo faça qualquer objeção.

Acompanhando a discussão de Martin Jacques, a questão talvez seja saber se os chineses querem estabelecer contato cultural com o mundo quando a troca interna já existe. Em lugar do Whatsapp, eles têm o WeChat, que possui uma infinidade de outras funções que não se encontra no aplicativo do Zuckerberg (paga contas, solicita serviços de entrega, debita quantias em qualquer compra). O aplicativo é da empresa Tencent, que já tem valor de mercado maior que o do Facebook. É da empresa também o Tencent Video, o Youtube chinês.

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Em lugar de ser a China sucateada da era Mao, ela se transformou na China das start-ups de tecnologia de ponta e do e-commerce, a partir das reformas de Deng Xiaoping nos anos 1980 que mudaram a cara do país. Houve a substituição de empresas exclusivamente estatais por empreendimentos que operam como iniciativa privada e tivemos ainda uma migração crescente do campo para as áreas urbanas, em uma mudança que tirou parte da população da miséria. “Crônicas de uma Crise Anunciada” (FGV Editora, 2016) colige artigos que discutem o assunto comparativamente com a situação econômica brasileira. Assinados pelo amigo Pedro Cavalcanti e seu parceiro Renato Fragelli, os textos mostram como um dos pontos centrais no bem sucedido exemplo chinês se deve ao investimento pesado e a preocupação central com o aumento do grau de escolaridade da população.

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Thomas Piketty não poderia ficar de fora do debate. Em um estudo recente, realizado com seus colegas Gabriel Zucman e Li Yang e intitulado “Capital, Accumulation, Private Property and Rising Inequality in China” (NBER Working Paper, 2017), ele analisa a economia chinesa depois de ter cuidado de Europa, Japão e Estados Unidos. Aplica ao caso chinês seu modelo de investigação, que considera fundamentalmente em que razão se dá em uma economia o acúmulo de riqueza e renda individual durante um período histórico específico. Identificou algo de surpreendente: a desigualdade na China avança de uma maneira que só tem paralelo com a realidade americana e que fica distante da conservadora França.

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Eu, que nunca tive vergonha de ganhar dinheiro e que já me submeti a coisas pelo vil metal que até Deus duvida, fico admirado com o espírito aventureiro de brasileiros que estão apostando no mercado chinês para pagarem suas contas, sejam eles jogadores de futebol, empresários, professores ou estudantes. No polo de ensino à distância em que trabalho, apareceu certa vez uma moça muito jovem. Era modelo e tinha vivido na cidade de Hangzhou durante um tempo. Não era modelo de capa de revista, mas de pafleto de venda de roupa íntima feminina. Voltava ao Brasil para concluir sua escolaridade básica e dar sequência à sua carreira nos Estados Unidos.

Outro exemplo é da professora paulistana Verena. Formada em mandarim pela USP, ela foi dar aulas de português para chineses na Universidade de Hubei, em Hunan, onde  conheceu a amiga Sisi Liao. Verena conta sua história à Sisi (dona do canal Pula Muralha), que fez o caminho inverso, dá aulas de mandarim em São Paulo e é casada com um brasileiro ainda que sua família viva na China.

Canal Pula Muralha: Sisi entrevista uma brasileira que morou na China

O casal de estudantes do interior paulista Dieter e Deyse Bruns, seguem um roteiro semelhante: estão aprendendo mandarim em Guiyang e contam como está sendo esta aventura no vlogue “2 a Mais na China”. Sempre tive curiosidade em conhecer como é o dia a dia chinês de uma perspectiva prática e eles têm saciado a minha busca por informações acerca da vida na terra de Xi Jinping. Com eles podemos saber como funcionam os serviços básicos. Coisas prosaicas como atendimento médico, supermercado, shopping center e até mesmo como é fazer uma visita a uma delegacia de polícia (ao mudar de residência na China, é necessário comunicar a mudança à DP mais próxima de seu novo endereço).

2 a Mais na China

No dia 9 de setembro de 1976, uma quinta-feira, estava pela manhã em sala de aula no Colégio Andrews, em seu prédio da Praia de Botafogo, o mesmo prédio em que Clarice Lispector havia estudado se preparando para a faculdade de direito, quando o diretor da escola interrompeu nossa aula para comunicar à classe a notícia da morte de Mao Tsé-Tung, fato do qual acabará de tomar conhecimento. Segundo suas palavras, Mao fora uma das personalidades mais importantes do século. Não sei se àquela altura já se sabia algo sobre a iniciativa do grande timoneiro de uma industrialização de fundo de quintal que levou 40 milhões de pessoas à fome e à morte.

Quatro décadas depois, vemos a China com papel importante e central na economia do mundo. Alguns apostam em um governo que tem inflado a realidade, criado cidades fantasmas e uma bolha econômica que em breve levará a economia do mundo ladeira abaixo. Outros acreditam  na capacidade de uma economia dinâmica e de uma administração rigorosa em lidar com situações extremas.  O futuro dirá quem tem razão.

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About Marcos Pedrosa de Souza

Marcos Pedrosa de Souza é professor da Fundação Cecierj. Tem formação em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e em letras pela Universidade Santa Úrsula. É mestre e doutor em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi colaborador de O Globo e de outros jornais e revistas. Foi professor do IBEU, da Cultura Inglesa e da Universidade Estácio de Sá.
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