Godard, Céu e Inferno com suas Musas

berg bestNas fases em que flertou abertamente com o cinema comercial, Jean-Luc Godard nunca deixou de provocar o imaginário do público que frequentava as sessões de seus filmes com uma constelação de musas. Nos anos 60, a lista incluiu Jean Seberg e Briggite Bardot, que estiveram à frente de dois de seus clássicos do período: “O Acossado” (“À Bout de Souflle”, 1959) e “O Desprezo” (“Le Mépris”, 1963). A musa mais constante na época, no entanto, foi aquela que se tornaria sua primeira mulher: Anna Karina.

Aos 17 anos, a dinamarquesa Hanna Karin Barkle Bayer chegou a Paris sozinha, de carona, com pouco dinheiro e se hospedou em um hotel barato na Bastilha. Enfrentou dificuldades porque a vida não é fácil pra ninguém, mas, no Quartier Latin, foi abordada ao acaso no café Les Deux Magots, ponto de encontro do que foi chamado um dia de intelectualidade, e requisitada para fazer um trabalho como modelo. Na ocasião, recomendaram ainda que ela adotasse o nome artístico que a consagraria. Conseguiu, em seguida,  estrelar propagandas de dois sabonetes (Mon Savon Bouquet e Palmolive) na inevitável e óbvia cena do banho de banheira. Godard viu uma das propagandas e sugeriu que ela fizesse algo semelhante em um trecho curto de “O Acossado”, só que completamente nua. Karina não toupou, o que foi uma pena. Caso contrário teríamos mais uma passagem antológica e certamente engraçada no filme. Quando não estava ainda obcecado com a militância, Godard era sempre hilário.

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Meses depois, Anna Karina recebeu um telegrama do aquela altura já muito falado diretor de “O Acossado” com um convite para que fosse ao seu escritório conversar sobre sua participação em uma outra produção, desta vez como atriz principal de um filme político. Como era menor, Karina teve que trazer a mãe de Compenhague para assinar o contrato.  Fizeram “O Pequeno Soldado” (“Le Petit Soldat”, 1960), começaram a namorar durante as filmagens, se casaram e ainda rodaram outros seis longas, entre eles, mais investidas certeiras do enfant terrible: “Uma Mulher é uma Mulher” (“Une Femme est une Femme”, 1961), “Viver a Vida” (“Vivre sa Vie”, 1962), “Alphaville” (Alphavile, une Étrange Aventure de Lemmy Caution”, 1965) e “O Demônio das Onze-Horas” (“Pierrot le Fou”, 1965).

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Para um godardiano dedicado que frequentava as sessões de seus filmes em 16mm no subsolo da Aliança Francesa da rua Duvivier, bem como as do auditório da Associação Brasileira de Imprensa – que acompanhava tudo de longe, portanto, e mais de dez anos depois da sua primeira fase cinematográfica-, as coisas pareciam tranquilas entre os dois. Isso até sabermos de desentendimentos, da perda de um filho durante a gestação e da internação de Karina em uma clínica por causa de uma tentativa de suicídio.

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Após as gravações de “Made in USA” (1966), a atriz principal mais constante em filmes do cineasta franco-suíço  andava participando de produções de diretores como Roger Vadim e Jacques Rivettes e sendo cortejada por Serge Gainsbourg, que preparou um disco com sua participação e dedicado a ela (“Anna”; virou uma comédia musical para TV). Jean-Luc e Karina vinham se separando desde o final de 1964 e estava chegando  ao fim a relação entre eles.

Fui atrás desta história toda por causa de “O Formidável” (“Le Redoutable”, 2017), que se ocupa da musa escolhida por Godard como estrela de seus filmes em seguida ao rompimento com Karina: Anne Wiazemsky. Com Wiazemsky, o cineasta também se casaria, também teria uma relação conturbada e realizaria outras três de suas produções: “A Chinesa” (“La Chinoise”, 1967) “Week-End à Francesa” (“Week-End”, 1967) e “One Plus One” (“Sympathy for the Devil”, 1968; com sketchs que se intercalam com a gravação da conhecida música dos Rolling Stones).

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Para se casar com Wiazemsky, com 19 anos na época, Godard teve mais uma vez que buscar o consentimento de terceiros. Desta feita em uma situação delicada, pois tratava-se de ninguém menos que o escritor e nobel de literatura François Mauriac, o “maior representante do romance psicológico na tradição francesa”, segundo avaliação de Otto Maria Carpeaux que o admirava especialmente. O problema adicional era que além de tutor de Anne Wiazemsky e de seu irmão Pierre, Mauriac apoiava o governo de Charles de Gaulle, para dissabor de Comunistas e Socialistas, justo quando Godard iniciava sua militância política.

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“O Formidável” é adaptação de escritos autobiográficos de Wiazemsky (os livros “Une Année Studieuse” e “Un an Après”) e se atém à perspectiva da atriz. É  sua novidade, seu trunfo. Enfatiza novas passagens conturbadas na vida de Jean-Luc. Não se trata apenas de filme para os cultuadores do cineasta. Como comentaram na Folha, Hazanavicius trabalha com humor e com toques à la Woody Allen sua narrativa. Ainda que reverencie o estilo godardiano, faz um cinema em moldes tradicionais o que vai agradar até mesmo à platéia de não convertidos aos manerismos de um dos expoentes maiores da Nouvelle Vague.

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O veterano crítico Inácio de Araujo acha que Hazanavicius, do premiado “O Artista”, tenta desqualificar o maio de 1968, diminuir Godard e não apresenta a posição firme do cineasta expressa por sua independência em relação ao cinema comercial que viria com sua participação no coletivo Dziga Vertov. Tudo isso é verdade, mas Hazanavicius queria apenas mostrar uma outra e desconhecida visão sobre o cineasta. E conseguiu.

Ao que tudo indica, Jean-Luc Godard não leu o roteiro, não viu o filme e não gostou. Reza a blague que ao receber o script chegou a perguntar: “Mas pra que script?”. Anne Wiazemsky estranhou de início o interesse de Hazanaicius, mas apoiou o projeto. Morreu no começo de outubro passado, vítima de câncer aos 70 anos, em seguida à estréia de “O Formidável” na França. Os jornais brasileiros desconsideraram por completo sua partida. Não merecia tal esquecimento.

“Redoutable” em Cannes

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About Marcos Pedrosa de Souza

Marcos Pedrosa de Souza é professor da Fundação Cecierj. Tem formação em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e em letras pela Universidade Santa Úrsula. É mestre e doutor em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi colaborador de O Globo e de outros jornais e revistas. Foi professor do IBEU, da Cultura Inglesa e da Universidade Estácio de Sá.
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2 Responses to Godard, Céu e Inferno com suas Musas

  1. Muito interessante o resumo. Na minha opinião, “Acossado” está entre os melhores (e mais fundamentais) filmes da história do cinema.

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    • Olá, Oscar, obrigado pela visita. Nos anos 60, Godard estava em sua melhor fase. Extremamente criativo. Não conheço quem não goste de “O Acossado”. Acho mesmo que o diretor merece uma outra postagem falando sobre sua contribuição para a história da narrativa cinematográfica. Vejamos se sai. Abraço

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