Morrissey cumpriu o prometido. Compromisso assumido, levantou cedo, ainda que contrariando seus hábitos, e fez o seu pocket show para os happy few que correram atrás de entradas para vê-lo (com transmissão radiofônica ao vivo) em um dos lendários estúdios da BBC em Maida Vale, ao meio-dia da última segunda-feira. Passei um mês de janeiro inteiro no começo de 1992 em um dos flats das Carlton Mansions, de cara para o belo parque recreativo de Paddington com suas quadras de tênis, e nunca imaginei que os estúdios da BBC, onde eram gravadas as sessions para o programa de John Peel, que sintonizava religiosamente às 11 horas da noite, ficassem ali pertinho.
Com os Smiths e depois em carreira solo, Moz sempre foi figura carimbada entre as escolhas para as sessions da BBC. Ainda assim, se disse agradecido pelo convite do 6 Music Live, de Lauren Laverne, para que se apresentasse em época em que, segundo comentou modestamente, essas ofertas são raras (será?). Logo agora que, depois de ter passado por um selo independente, o letrista das novas “I Wish You Lonely”, “Jackie´s Only Happy When She´s Up on the Stage”, “When You Open Your Legs”, “Home is a Question Mark”, “All the Young People Must Fall in Love” e “Spent the Day in Bed” (7 das 12 composições inéditas cantadas no início daquela tarde) voltou a ser paparicado por uma major como a BMG inglesa.

Durante o show, tivemos os ataques costumeiros ao Brexit, à polícia que na véspera tinha agido truculentamente durante o plebiscito pela independência da Catalunha e à extrema direita de Anne Marie Waters. Como o Pete Townshend durante o show do Rock in Rio ao saber da presença de João Doria na platéia, fiquei a me perguntar: “The Who?” (a piadinha é cortesia de Alfredo Ribeiro, vulgo Tutty Vasques).
A banda que vem acompanhando Stephen Patrick, comandada pelo “omnipresente Boz Borrer” (deferência do cantor para com o seu mais constante parceiro), segue afiadíssima. Não tenho horror ao passado, mas também não sou um saudosista inveterado. Por isso, não vejo com bons olhos uma volta dos Smiths. Talvez uma participação de Johnny Marr na banda de Morrissey fosse interessante, assim como a de Andy Rourke e de Mike Joyce. Os dois últimos, como se sabe, brigaram feio com o cantor-compositor nos tribunais atrás do vil metal e não há como eles voltarem a estar lado a lado como fizeram nos anos que se seguiram ao fim dos Smiths. A verdade é que enquanto Morrissey trilhou, e segue dando continuidade a uma prolífica carreira solo, Marr, Rourke e Joyce não fizeram nada de minimamente relevante.
A mesma falta de interesse por assistir a um show dos Smiths reunidos se replica no caso do The Who. Fui vê-los no Rock in Rio, única e exclusivamente porque existe uma whomaníaca neófita aqui em casa que queria por que queria ver “os divos”. Tento explicar que comecei a ouvir o Who em uma vitrolinha que rodava discos em 33, 45 ou 78 rotações, e em que o long play de “My Generation” se revezava com o de “Sgt. Pepper´s” e o de “Tropicália ou Panis et Circencis”. Depois foi a vez das vitrolas de console em que o amigo Paulo Guimarães, sempre a partir de 1 da tarde (ele só levantava a esta hora), pilotava sem parar o “Quadrophenia” no seu quartinho de fundos na Joaquim Nabuco. Em seguida me cansei de ver “Tommy” na tela do Cine Veneza. Ou seja, fiquei tão saturado, que minha paciência para “Pinball Wizard” é bem próxima de zero.

Mais do que do Who, sou fã de carteirinha da carreira solo de Pete Townshend, com quem acordava às 6 da manhã ao som de “A Little is Enough”, de seu primeiro disco individual depois das parcerias com Ronnie Lane. O serviço de despertador era a vinheta com que a Fluminenese FM dava início às suas transmissões radiofônicas todos os dias às 6 da manhã. Logo depois lançaria o clássico “All the Best Cowboys Have Chinese Eyes” e, em seguida, o “White City”, que não teve o mesmo impacto dos anteriores. A retomada da carreira do Who também foi uma nova lufada do talento de Townshend e eram as músicas dessa fase (especialmente “Eminence Front”) juntamente com números antigos e menos conhecidos como “The Seeker”, “I´m the Face”, “Pictures of Lily”, que mais gostaria de ouvir. Em função da reduzida seleção da setlist para um show curto, ficaram todas de fora, à exceção de “Who Are You” e “You Better, You Bet”.

Em lugar de um show como o do The Who no Rock in Rio, preferia ver a versão orquestral preparada pela atual mulher de Townshend, a musicista Rachel Fuller, com Billy Idol e o tenor Alfie Boe nos vocais, e apresentada em Nova York e Los Angeles nas semanas que antecederam a chegada do grupo ao Brasil. Era parte de uma tour que correu os Estados Unidos em revezamento com as apresentações do Who e que chegou a ter mesmo noites especialíssimas dedicadas a ela no Royal Albert Hall londrino.

