Almoço Nu no Little Club e o Festival Sonora no Donninha Delivery

Ana Fainguelernt e seus companheiros de fuzarca

Imerso em minha completa ignorância, eu poderia jurar que o Beco das Garrafas, o Little Club e o Bottles Bar tinham suas respectivas existências limitadas, nos dias que correm, às páginas do ótimo “A Noite do Meu Bem”, de Ruy Castro. Qual não foi minha surpresa ao constatar que o recanto escolhido pela portuguesa de sotaque afrancesado Eunice Colbert para instalar o seu night club Chez Colbert e para onde convergiram os imigrantes italianos e futuros empresários Mario, Giuseppe e Alberico, depois de desembarcarem no porto da Praça Mauá em meados do século passado, continua aberto e em pleno funcionamento para os que ainda acreditam ser possível se divertir e aproveitar as noites cariocas.

Durante os anos 1950 e 60, Dorival Caymmi, Johnny Alf, Lúcio Alves, Nelson Gonçalves, Elis Regina, Simonal e músicos que ensaiavam uma tal de Bossa Nova, faziam ponto e se dividiam no palco destes e ainda de outros clubes noturnos como o Escondidinho e o Baccara (já falecidos), todos instalados no enclave da rua Duvivier. O Beco era barulhento o suficente para um morador, em um ataque de ira, despejar garrafas sobre a cabeça daqueles que conversavam e aproveitavam a noite (razão pela qual o lugar ganharia seu nome).

Fui levado ao Beco das Garrafas e ao Little Club por minha nova companheira de noitada, Ana Fainguelernt. Ela fez um show por ali com seus parceiros de fuzarca da banda Almoço Nu, turma com a qual se junta quando está de folga da Ana Frango Elétrico. Eram convidados da banda residente, Giras Gerais, que faz MPB de qualidade, tem disco lançado pela Coqueiro Verde e é de uma competência a toda prova.

Na entrada da passagem de acesso aos night clubs está instalada a loja-museu Beco das Garrafas. Fiquei pensando que, apesar de todo este esforço, tudo por ali deve ainda andar um pouco triste desde que um dos ilustres moradores daquelas redondezas, o poeta Ferreira Gullar, se foi. Era a minha referência na rua Duvivier desde que em uma tarde do começo de 1981, estive em sua casa como estagiário de uma equipe de produção de um programa gravado por Roberto D´Ávila para a Televisão Educativa.

Ainda estavam todos vivos, Gullar, a esposa Teresa e o filho mais novo que era meu xará. E a casa do poeta era belíssima com obras suas, de seus amigos e ainda objetos de arte naïf espalhados por todo canto. A elas se juntara há pouco um croqui, ganho por Gullar como presente de Oscar Niemeyer dias antes durante a gravação de um programa de entrevistas também comandado por Roberto D´Ávila.

Da grande pajelança do Almoço Nu no Little Club, partimos no último domingo para uma apresentação intimista no Donninha Delivery. Anuska me carregando de novo para mais uma volta ao passado, desta vez na Tijuca, onde vivi em exílio, mas feliz da vida, muitos anos morando com mulher, sogra, papagaio e periquito em dois endereços: rua Martins Pena, 15, apto. 203, e na rua São Francisco Xavier, 146, apto. 404.

Trabalhava no Grupo Impacto Pré-Vestibulares e tinha a amizade de um dos muitos biólogos com os quais cruzei na vida (os outros foram o Paulinho, o Arapinga, que já nos deixaram há um bom tempo, e o Calbuque). Tijucano apaixonado por seu bairro a ponto de dizer que não se mudaria de lá por nada neste mundo, Fred tinha fixação com o Homem de Neandertal. Consumia heavy metal vorazmente. Heavy metal de raiz: Angra, Dorsal Atlântica, Sepultura. Pegava todo o salário ganho no fim do mês e enterrava na loja de discos Headbanger num shopping da Saens Peña. Um dia voltou de Nova York com a mais minuciosa documentação imaginável de uma visita ao Museu de História Natural daquela cidade. Trouxe também sua coleção de raridades de metal super pesado. Contava com orgulho que, ao passar o cartão de crédito no caixa da Tower Records, chegara a sair fumaça da maquininha.

No aconchegante espaço do Donninha Delivery da Tijuca (já descobri que eles têm uma filial em Botafogo), tivemos uma das sessions do Festival Sonora só de mulheres-compositoras. As atrações, além do sanduíche vegatariano conhecido como Osho e da banguete com queijo brie e geléia de damasco (recomendo os dois), eram as cantoras compositoras Luiza Brandi e Ana Frango Elétrico. Experiente com dois discos lançados e com uma excursão pela Europa na bagagem, a mineira Luiza Brandi fez um show de classe só com voz e violão. Interpretou as músicas de sua carreira solo, já que ela divide seu tempo ainda com as bandas Graveola, Lixo Polifônico, Boreal (de canções de câmara) e com o coletivo ANA. O Ciclo Internacional de Compositoras, que acontece em 69 cidades em 15 países, segue como uma aposta única contra a “supremacia masculina nos palcos”. Estão certas de reclamar.

Ana Fainguelernt solo

Avatar de Desconhecido

About Marcos Pedrosa de Souza

Marcos Pedrosa de Souza é professor da Fundação Cecierj. Tem formação em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e em letras pela Universidade Santa Úrsula. É mestre e doutor em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi colaborador de O Globo e de outros jornais e revistas. Foi professor do IBEU, da Cultura Inglesa e da Universidade Estácio de Sá.
Esta entrada foi publicada em Almoço Nu, Ana Frango Elétrico. Adicione o link permanente aos seus favoritos.

Deixe um comentário