Desafios em Terra e Mar

20883268_1640086112689568_171431321_oWilliam Finnegan não levou o Pulitzer (prêmio de jornalismo concedido pela Universidade de Columbia desde 1917), na categoria de biografia/autobiografia, embolsou 15 mil dólares e o prestígio de ser agraciado com a honraria, à toa. Além de ser um relato sobre alguém que por circunstâncias pessoais passeou muito pelo planeta e teve contato com uma grande variedade de culturas, “Dias Bárbaros – uma Vida no Surfe” (Intrínseca, 2017), na tradução de Edmundo Barreiros, ou “Barbarian Days: a Surfing Life” (Audible, 2015), em audiolivro com leitura feita pelo próprio autor,  é contado com cuidados e requintes que ganham e se justificam ao leitor/ouvinte com facilidade.

Formado pela Universidade da Califórnia em estudos literários, o jornalista nova-iorquino nascido em 1952, colaborador fixo da New Yorker desde 1987, nos lança em sua trajetória de vida alterando um pouco sua cronologiaInicia sua história pessoal já na adolescência vivendo com os pais em Honolulu, lugar em que o gosto pelo surfe, iniciado na infância na Califórnia, se consolidou e o levou ao vício de desafiar mares de ondas grandes como as que quebram no inverno em Pipeline e Waimea, na costa norte da ilha de Oahu no Havaí (não confundir com aquelas surfadas a reboque de jetski pelos big riders Maya Gabeira, Carlos Burle e Pedro Scooby em Mavericks, São Francisco, e em frente ao Farol de Nazaré, em Portugal).

Palestra na livraria Politics & Prose, em Washington

Como cresceu nos anos 60 em meio a geração Flower Power, Finnegan seguiu a cartilha do período. Depois de trabalhar como frentista de um posto de gasolina e de fazer alguns bicos, economizou dinheiro suficiente para, inspirado pelas narrativas de Jack Kerouac, cruzar os Estados Unidos de costa a costa. Antes disso, morou de forma improvisada com uma de suas namoradas na ilha de Maui, onde Jimi Hendrix realizou o show-disco-filme cult “Rainbow Bridge”, aquele que viria a ser o registro de sua última performance em vida. Terminada a faculdade, foi se aventurar pelos mares do Pacífico sul, acampando e dormindo em qualquer canto com o amigo Bryan Di Salvatori (aparece ao lado do autor na foto de capa do livro).

Eram parceiros de aventuras literárias, nutriam lado a lado a pretensão de escrever o “definitivo romance norte-americano”, e foram juntos atrás de ondas desconhecidas que rivalizassem com as do Havaí. Acabaram descobrindo lugares selvagens onde a prática do surfe era ainda inexistente, como Tavarua, em Fiji, que hoje é parada obrigatória do Circuito Mundial dos surfistas profissionais. Passaram também pela Polinésia, Austrália e Finnegan acabou se fixando na África do Sul, onde deu aulas em uma escola de segundo grau e vivenciou de perto o apartheid.

A partir de 1984, começou a contribuir com a New Yorker, o que o fez voltar em 1987 à África do Sul como repórter para retratar o que conhecia bem. Foi o início de sua ligação ao jornalismo que cobre áreas de conflito. Tem alguns livros retratando essa prática jornalística que parece replicar o seu gosto por vivenciar situações limite. Além de “Dateline Soweto”, sobre o apartheid, lançou também “A Complicated War: the Harrowing of Mozambique”, que cuida da guerra civil no país. Nos Estados Unidos, seu jornalismo militante discute a situação de imigrantes e adolescentes deslocados na “home of the brave, land of the free”. Tem um livro sobre o assunto: “Cold New War: Growing Up in a Harder Country”. Hoje mora em Nova York, mas do período em que passou em San Francisco nos anos 1990, saiu uma coluna da New Yorker sobre sua experiência como surfista na cidade e a convivência com o amigo, médico e também surfista, Mark Renneker.

Palestra na Escola Punahou em Honolulu

Um vlogueiro acusou “Dias Bárbaros” de ser obra de um “name dropper”. O que não deixa de ser verdade. Como consequência do seu gosto pela arte da escrita, Finnegan cita sem parar. Levi-Strauss e seus “Tristes Trópicos” para falar sobre a obstinação daqueles que correm o mundo em busca do desconhecido, Proust e seu talento, para comentar a inveja de uma namorada que o lia em francês, e ainda Joyce (um favorito do escritor), Blake, Dylan Thomas, Melville, Eliot e até Luís de Camões. As ondas da Ilha da Madeira acabaram sendo mais uma das descobertas do surfista viajante.

A edição da Intrínseca é luxuosa, fisicamente bem acabada com capa e papel resistentes e de qualidade, mas a tradução peca vergonhosamente. É bom ler traduções problemáticas porque elas mostram o quanto é difícil verter um livro. Nos dão a chance também de perceber como gente como José Paulo Paes e Paulo Henriques Britto fazem milagres. Sabemos que muitas vezes um livro longo, como “Dias Bárbaros”, tem de ser traduzido a toque de caixa, o que torna o trabalho ainda mais complexo. Não se justifica, no entanto, passagens e mais passagens que parecem ter sido feitas pelo tradutor do Google. O texto final, para piorar as coisas, contou com três revisores que deixaram passar coisas que parecem difíceis de acrecitar que tenham escapado a tantas leituras de profissionais da área.

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About Marcos Pedrosa de Souza

Marcos Pedrosa de Souza é professor da Fundação Cecierj. Tem formação em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e em letras pela Universidade Santa Úrsula. É mestre e doutor em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi colaborador de O Globo e de outros jornais e revistas. Foi professor do IBEU, da Cultura Inglesa e da Universidade Estácio de Sá.
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1 Response to Desafios em Terra e Mar

  1. Avatar de Margarida Margarida disse:

    Até para quem prefere ler em português a tradução as vezes incomoda. Fiquei sem opção se quiser ler esse livro

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