As Apostas na Roleta da Música Pop

Dear Life (Beck)

O plantonista da semana no museu de velharias novidadeiras da música pop foi Beck Hansen que deixou escapar uma composição estilo “beatles late phase” intitulada “Dear Life” como parte de seu novo álbum, “Colors”, a ser lançado no dia 13 de outubro. Três músicas já haviam aparecido anteriormente: “Dreams”, em junho de 2015, “WOW”, um ano depois, e, em seguida, “Up All Night” (como trilha do jogo Fifa Soccer em sua edição 2017). Ao lado destas, “Dear Life” é a quarta das 10 composições gravadas por Beck, assessorado pelo produtor Greg Kurstin, para o novo álbum.

Ainda que mantenha certa constância no grupo de instrumentistas que o acompanha ao vivo, Beck Hansen gosta de variar os músicos com os quais trabalha em estúdio. Tem feito isso desde o período conhecido aqui em casa como “Beck antes da fama” (dos discos “Golden Feelings”, “Stereopathetic Soulmanure” e “One Foot in The Grave”). Depois, em investidas sempre inovadoras, que alternaram lançamentos de enorme apelo comercial, como “Odelay”, “Mutations” e “Midnite Vultures”, com discos menos popista, como “Guero” e “Modern Guilt”, o compositor teve apenas o inglês Nigel Godrich (Radiohead, REM, U2) como produtor mais frequente (estão juntos em “Mutations”, 1998, “Sea Change”, 2002, e “The Information”, 2006).

É normal não ligar o nome de Greg Kurstin à pessoa, pois ele age nos bastidores. Cuidou da fabricação de uma lista grande de finíssima sucata pop: de Adele (“Hello”) à Lily Allen (“Not Fair”), Sia (“Elastic Heart”) e Pink (“True Love”). Compôs e produziu ainda músicas para o aparentemente fraco disco solo de estreia de Liam Gallagher (“As You Were”), também prestes a ser comercializado (“Wall of Glass” e “For What´s Worth” já ganharam vídeos de divulgação e podem ser ouvidas). Está, por fim, gravando com Macca o próximo trabalho do papai de Stella McCartney. Aliás, fica aqui a dúvida. Será que o novo álbum de vovô Paul vai ter algum hit tão irretocável quanto “Dear Life”?

Foi no estúdio de Kurstin em Los Angeles que “Colors” foi gravado, com ele e Beck cuidando de tudo. Além da produção, Kurstin ganha crédito por dividir a autoria de “Dreams” (em triangulação com Andrew Wyatt) e “Up All Night”. A faixa “WOW” também é, coisa rara de acontecer com Beck, resultado de parceria. Desta vez com outro produtor, Cole M. Greif-Neill. Mas foram tão somente estas três faixas, o restante é obra exclusiva do multi instrumentista virtuose que gosta de compor sozinho, letra e música. Mesmo porque as letras de Beck são um item à parte. Fico mesmo imaginando a trabalheira que não deve ser lembrá-las nos shows.

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Em agosto de 1984, John Peel, pelas ondas da BBC Radio1, nos dava tarde da noite e pela primeira vez a audição de “How Soon is Now”, música que Johnny Marr tinha acabado de compor com Morrissey e andava ensaiando com Roarke e Joyce. Entraria na coletânea “Hatful of Hollow” e e posteriormente também em algumas das edições do disco “Meat is Murder”, antes de se transformar em um hino dos Smiths. Era o tempo em que os DJs, que recebiam pelo correio cartas e tapes de ouvintes e de candidatos aos estrelato, orientavam o público sobre as novidades. Mais de 3 décadas depois, o Vevo de Beck Hansen é que nos faz conhecer a nova aposta do autor de “Loser”. Em novembro, Morrissey tentará nos convencer que tem o que acrescentar à história da música pop com o lançamento de seu novíssimo “Low in High-School”. Aguardando portanto os novos lances na roleta da indústria da música em seu ciclo digital, podemos seguir repetindo o refrão de Beck: “Dear Life/I am holding on/How long must I wait/Before the thrill is gone”.

Dreams

WOW

 

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About Marcos Pedrosa de Souza

Marcos Pedrosa de Souza é professor da Fundação Cecierj. Tem formação em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e em letras pela Universidade Santa Úrsula. É mestre e doutor em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi colaborador de O Globo e de outros jornais e revistas. Foi professor do IBEU, da Cultura Inglesa e da Universidade Estácio de Sá.
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