
Andei sumido, mas foi por uma boa causa. Estava finalizando a compra de um apartamento pequeno, porém bem simpático, na Barra da Tijuca. Fiquei especialmente encantado com a piscina e com o preço, que falou alto. Os imóveis na Barra são bem mais em conta do que os da Zona Sul. Tive, de qualquer maneira, a ajuda, certamente involuntária, do senhor João Uchôa, dono da Universidade em que trabalhei. Sempre tive empatia por ele, ainda que nunca o tenha conhecido pessoalmente. Lecionei em todos os campi da Universidade Estácio de Sá, o que me fazia correr o Rio de Janeiro inteiro, de Madureira ao Rio Comprido. Me aventurei até mesmo a dar aulas em Niterói e Petrópolis.
Gostava de frequentar todas as unidades, mas especialmente, por causa de sua beleza, o campus Tom Jobim, onde cheguei à época de sua inauguração em 2000, e lugar no qual tinha minha maior carga horária. O prédio foi todo construído, em um dos lotes do Centro Empresarial Barrashopping, exclusivamente para abrigar a unidade. Apreciava sua arquitetura que gaiatamente tentava replicar um pouco das linhas do Guggenheim de Nova York. Havia esculturas e obras de artistas plásticos contemporâneos espalhadas por todo o campus, assim como quadros pintados pelo próprio Uchôa, grande parte deles exibindo, em meio às pinceladas, jogos de palavras. Chegou a publicar livros e a escrever uma peça elogiada por Millôr Fernandes.
Certamente, o gosto pelas Letras foi o que fez com que contratasse Deonísio da Silva e Reinaldo Pimenta, dois entendidos em filologia, para ficarem como consultores à disposição dos professores para troca de ideias. Já havia trabalhado com Pimenta em um cursinho pré-vestibular e adorava seus livros, entre os quais há o ótimo “A Casa da Mãe Joana”, sobre a origem de expressões, frases e palavras. Deonísio também tem livros saborosos sobre etimologia, uma interessante dissertação sobre Rubem Fonseca, e ainda suas ficções. O premiado autor de “Avante, soldados: Para Trás” (Prêmio Internacional Casa de las América), que depois se tornaria diretor do curso de Comunicação, nos recebia sem pompa e sem cerimônia em sua sala para conversar sobre o que quer que fosse e tinha um papo agradabilíssimo.

Curioso é que por todos os lugares pelos quais passei em minha vida profissional, com raríssimas exceções (muito raras mesmo), os departamentos de RH sempre tentaram armar algum cambalacho com os funcionários. Muitos destes RHs foram bem sucedidos contra mim. Tenho ações trabalhistas, por falta de recolhimento de FGTS e outras pendengas, das quais nunca consegui receber um único centavo. Fui ainda muito relapso, pela falta de experiência, em ações contra grandes empresas, gigantes do mercado midiático, o que lamento. Na Universidade e a certa altura, algum gênio tentou tirar dez minutos de todas as aulas de todos os professores dos turnos da manhã e da tarde. Devem ter feito uma economia astronômica, mas a conta chegou depois e com acréscimos também astronômicos. Sou muito grato a esse gênio.
Foi a primeira vez em que a justiça do trabalho de fato funcionou para mim. Por isso, e ainda que já esteja caminhando para a calvície plena, fico de cabelo em pé pensando no que a geração que está chegando ao mercado vai ter de enfrentar com a reforma na legislação trabalhista. Por trás dela, certamente estão deputados, senadores e presidente, todos muito bem “orientados” pelo empresariado, que por sua vez é orientado por algum contador, ou talvez um mero contabilista, de seu departamento de RH.



Kiko, João Uchôa morreu? Ou é um filho com o mesmo nome?
Ele foi meu paciente há muuuuuuitos anos. Já era um senhor. Pensei que tivesse morrido.
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Olá, Ana Lúcia, o João Uchôa já é falecido. Faleceu em 2012.
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