

A paternidade nunca me inspirou muito e confesso que admiro a abnegação dos que se prontificam a exercer voluntariamente este ofício. Não se trata de aversão à criança. Muito pelo contrário. Sempre me diverti muito com meus sobrinhos e de forma mais intensa ainda quando eles eram bem pequenos. A ter filhos, confesso que, por razões que a só a razão explica, preferiria seguir os passos de Ana Amélia Macedo e Roberto Berliner e optar pela adoção. Já existem crianças em número suficiente no mundo superpopuloso em que vivemos, a grande maioria delas totalmente desassistidas. E vejam a maravilha de família que a Ana Amélia e o Roberto construíram. Falta a mim, no entanto, a coragem que só os pais, sejam eles partidários da adoção ou não, têm.
Ao falar do estrangeiro Mgkai, Sheila retrata com a maior classe o ambiente escolar com seus tipos e incidentes recorrentes. Já tive que brigar muito com o Genildo. Como gostava de apanhar. Eu não entendia aquilo e queria paz para estudar. Teve uma hora que tive que ser sincero e direto com minha mãe: “Preciso mudar de escola urgentemente. Aquilo lá é uma bagunça”. A bagunça era o Colégio Brasileiro de Almeida. Nunca fui bad boy, mas andava em más companhias, não sei por quê. Um dia, depois da aula de educação física no Flamengo com o José Roberto Wright, o Marcos Alexandre foi para o alto da arquibancada do clube e, acreditem, jogou uma garrafa de Coca-Cola de lá de cima no meio da rua. O Nadais e eu estávamos com ele e o idiota aqui acabou na coordenação levando pito do professor Terdy. Por nada.
É. Sheila com sua ficção nos faz voltar no tempo. A autora encontra ainda o jeito certo de estabelecer aquele humor que é o que dá graça a uma estória bem contada. Na Malasartes, tivemos a leitura inspirada de uma atriz nata, a Risa Landau, que nos fez mergulhar de cabeça naquela balbúrdia escolar. Aconselhei a dupla a sair pelas livrarias da cidade levando a estória e sua mensagem para novos leitores, que precisam conhecê-la. Sim, senhores, a velha mensagem tão fora de moda estava precisando de alguém que a reabilitasse com alguma dignidade, o que acabou ocorrendo de forma delicada pelas mãos da Sheila. Especialmente em uma sociedade de crianças tratadas como semideuses, paparicadas ao extremo, e que podem tudo sem obrigação alguma em contrapartida.
Como disse Dana Carvey (ele teve dois garotos endiabrados que davam o maior trabalho), os pais de hoje em dia estão desmoralizados. Não têm a mínima autoridade. Em lugar de exigir boas maneiras, se limitam a comentar, como que humilhados, “não foi isso que nós combinamos”. Tomara que “Mgkai” ajude a criar um ambiente mais tolerante entre esta garotada. Quem sabe assim tenhamos pessoas que saibam tratar o desconhecido sem tanto preconceito, intransigência e espírito separatista. Vou recomendar a uma de minhas sobrinhas postiças, a Lilice, que proponha ao pessoal de sua escola de teatro, o Catsapá, uma montagem teatral de “Mgkai”. Torço para que isso aconteça.



Sheila Kaplan a 1a à direita no chão.
Li isso depois de ficar um bom tempo procurando pelo Kiko!
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Ana Lúcia, o Kiko tava no Brasileiro de Almeida, bem longe daí, metido em alguma confusão com o Nadais.
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muito interessante a história de Mgkai e apropriada aos tempos que vivemos mundo afora.A solução encontrada pra a solução do problema do “estrangeiro” fpi sem dúvida bem criativa.
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Qual era o exato endereço do Colégio Brasileiro de Almeida?
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