Algumas linhas sobre o pequeno grande Prince, falecido na manhã de 21 de abril. Era um instrumentista virtuose a serviço de um compositor extraordinário, em uma dessas combinações raras. Criou sua chuva púrpura a partir da neblina Hendrixiana, guitarrista ao qual não ousava se comparar em respeito ao talento inigualável do músico de Seattle e também por, sem modéstia alguma, ambicionar deixar sua marca particular na música negra norte-americana. O que fez sem nenhuma dificuldade. Mas Prince, além de exímio guitarrista, era também um pianista admirável e quando um músico se distingue de maneira evidente nestes dois instrumentos, costuma se sair bem em todos, o que fez com que ele pudesse gravar seu disco de estreia, “For You” (1978), de forma solitária.
Sua música foi a trilha sonora perfeita para momentos-chave da existência de muita gente, especialmente para os que acompanharam passo a passo sua carreira. Com “1999” e “Little Red Corvette”, ao lado de Tom Leão e Hermano Vianna, foi possível ver as primeiras imagens do músico e da tal da Music Television de que tanto ouvíamos falar. Tudo gravado no apartamento de Paulo Francis em Nova York, para desgosto do polemista. Sonia Nolasco, mulher de Francis, tinha uma sobrinha amiga de todos e, em uma passagem pela cidade, Hermano foi visitá-los e registrou a novidade. As imagens espalhafatosas de Prince seguiriam ampliando seus excessos em “Purple Rain”. Primeiro através dos clips do disco e, depois, com o filme que era visto em sessões ininterruptas.
O álbum favorito viria logo em seguida, o psicodélico “Around the World in a Day” (1985). Foi objeto de entrega apaixonada de um outro amigo, ou melhor, ex-amigo, Luiz Carlos Mansur, que vive hoje recluso e taciturno em Portugal, avesso a qualquer sinal de contato com o passado. Mansur chegou ao requinte de adentrar certa vez a redação com uma luva em apenas uma das mãos num exagero entre Michael Jackson e Prince. Cigarrinho no canto da boca, se colocou em frente à máquina de escrever para preparar uma das muitas odes que faria à sua Majestade Púrpura.
Apesar da admiração pela qualidade das composições e pelo virtuosismo do cantor, tinha dificuldade com o excesso de afetação do músico, traço que alguns atribuíam à expressão de uma timidez sem medida. Havia ainda aquela breguice e exagero incalculável no vestir que não ajudaram a que a admiração fosse completa. Musicalmente era um assombro, um desses músicos que arrebatam nos shows ao vivo, como no que fez no Rock in Rio no Maracanã em 1991. “Alphabet Street”, “When Doves Cry”, “Let´s Go Crazy”, “Raspberry Beret”, “Kiss”, “Cream”, “Sign of the Times” e mesmo a melosa “Diamonds and Pearls” estão entre as músicas favoritas.
O jornalista Luiz Henrique Romanholli teve o privilégio de assistir a um show intimista do músico no também bregoso Paisley Park, estúdio que Prince construiu em sua casa em Minneapolis, lugar em que escolheu para passar toda a vida e onde foi encontrado morto na última quinta-feira. Segue a postagem feita por Romanholli para o Livro-de-Caras contando a visita e o encontro. Reprodução feita com permissão desta rara Testemunha Intimista de Prince.

