
Capa da edição americana de Seis Passeios pelos Bosques da Ficção, esgotado no Brasil. Na Estante Virtual, o preço do exemplar começa em 100 reais (clique aqui). Na audible.com, o áudio-livro sai por 22 dólares (clique aqui)
Achamos que conhecemos bem um escritor e não mais do que de repente descobrimos que a obra deste autor ainda apresenta textos de um completo ineditismo para nós. Passei os últimos dias me deliciando com alguns escritos de Umberto Eco dos quais nem sabia da existência. Especialmente, Six Walks in the Fictional Woods (Seis Passeios pelos Bosques da Ficção, Companhia das Letras), as 6 conferências proferidas na década de 1990 por Eco dentro do famoso ciclo de palestras que leva o nome do estudioso norte-americano Charles Eliot Norton, evento que desde 1925 acontece anualmente na Universidade de Harvard nos Estados Unidos e prestigia um intelectual de renome. Trata-se de livro com digressões interessantíssimas sobre o ato da leitura e sobre as relações possíveis entre autor/leitor a partir das obras de Arthur Gordon Pym, ou melhor dizendo, Edgar Allan Poe, Italo Calvino, Achille Campanile, Kafka, Joyce, entre muitos outros. Não é preciso ser um entendido em semiótica para saber que estas considerações se aplicam à produção artística veiculada em ou por qualquer meio, até mesmo pela televisão, por exemplo.
Em meus comentários sobre a obra de Eco há algumas postagens atrás deixei esquecido também um romance, O Cemitério de Praga (Editora Record, 2011), aquele que traz o registro de uma citação que desconhecia: “Odeio, logo existo”. O livro e o tópico são comentados por Umberto Eco em depoimento concedido a Paul Holdengräber durante palestra gravada para os arquivos da Biblioteca Pública de Nova York (clique aqui). Com sua exuberante e majestosa barriga, que parece estar ali como que a atestar o júbilo de uma vida inteira dedicada à leitura e à escrita, Eco nos diz que ao que tudo indica a história tem demonstrado que necessitamos odiar fortemente alguém para existirmos. Foi um motorista de táxi em Nova York que o despertou para o assunto, ao indagá-lo, para sua grande surpresa, sobre as pessoas que odiava em seu país.
Ódio semelhante a este podemos talvez identificar nas ações do senhor Sérgio Moro em relação ao senhor Luiz Inácio Lula da Silva. E, nesta hora, peço ajuda aos queridos amigos leitores e entendidos nos campos da psicologia e da psicanálise (em breve teremos aqui um conto dedicado a vocês; aguardem). Vejamos se vocês conseguem me auxiliar no esclarecimento de um enigma. De onde vem, onde nasce, este ódio para com uma pessoa?
Acompanhem a seguinte ponderação: o senhor Sérgio Moro, mestre e doutor pela Universidade do Paraná com um curso rápido de especialização de 5 dias (clique aqui) realizado naquela mesma Universidade de Harvard em que Eco palestrou, poderia perfeitamente, e a bem da justiça, ter encaminhado as gravações que suas investigações levantaram direto para o Supremo Tribunal Federal, em sigilo completo, a fim de que este tomasse conhecimento, avaliasse e, como corte suprema e soberana, decidisse o que fazer. Em lugar desta atitude, no entanto, ele preferiu, sem justificativa razoável alguma, constranger publicamente a pessoa por ele investigada. A intenção, segundo foi comentado, era informar a população sobre fato relevante. O que foi revelado para o que vos digita, porém, foi a manifestação daquele ódio profundo que o ser humano parece guardar bem escondido no lugar mais recôndito de sua alma.
Lembrou muito os ataques de um craque neste assunto: Carlos Lacerda. O Corvo em suas investidas iradas contra Getúlio Vargas e Samuel Wainer nos anos de 1950 conseguiu criar um momento de instabilidade no país que culminou com o suicídio do ditador do Estado Novo. E com esta lembrança, chego mesmo a me perguntar se não estaríamos revivendo a República das Abelhas com a história se repetindo como farsa neste momento. A diferença é que Carlos Lacerda era um político, uma classe que vive deste tipo de expediente. Investidas desta natureza por parte de um juiz, no entanto, não ficam nada bem. Não foi à toa que editorial de hoje da Folha de São Paulo reprovou a iniciativa de Moro.

