A Obra Aberta da Lava-Jato

12834761_1120957261269125_1685187744_n

Os dois mais importantes colunistas culturais brasileiros vivos, Ruy Castro e Sérgio Augusto, dedicaram artigos a Umberto Eco durante o fim de semana. O nosso biógrafo e historiador da vida cotidiana do século XX favorito desencavou um daqueles achados e nos lembrou que a primeira especulação sobre a tal “obra aberta” partiu de um artigo de Haroldo de Campos publicado em 1955 no jornal Diário de São Paulo. O poeta, tradutor e um dos idealizadores do programa de comunicação e semiótica da PUC-SP disparou portanto a fagulha que Eco, que teve convivência com os irmãos Campos, soube bem aproveitar. Ruy Castro comenta então, em tom trocista, que não custaria nada portanto ao estudioso italiano ter registrado de alguma forma um agradecimento.

Sérgio Augusto falou sobre a prática jornalística de Umberto Eco citando os artigos que o “sábio do Piemonte” escreveu ao longo de toda a vida e desde os anos 1960. Escritos que desconheço. Parece que há coletâneas desses textos em Diário Mínimo, obra editada em dois volumes dando conta de períodos diversos da práxis jornalística de Eco. Quando achamos que conhecemos bem a obra do escritor, vemos que ainda há muita coisa a ser lida. Sérgio Augusto não deu muita atenção à produção romanesca do autor, mas ficou encantado e teceu loas a Número Zero, para vermos como cada obra chega a um leitor distinto.

Em sua coluna na página 2 da Folha de São Paulo, por onde já passaram dois dos maiores nomes do jornalismo brasileiro (Cláudio Abramo e Otto Lara Resende), Ruy Castro tratou ainda de atrelar a conversa sobre Umberto Eco ao momento conturbado que vivemos para observar de novo jocosamente que de obra aberta e ambígua quem entende mesmo é Luiz Inácio Lula da Silva. Para não dizerem que vivo em outro planeta, gostaria de comentar com petistas e anti-petistas (tenho amigos queridos dos dois lados) que a briga de torcida em que se transformou a investigação da Lava Jato, que, como assunto jurídico deveria correr distante de qualquer paixão, me deixa admirado. Não me agrada o jogo de cena de Lula, mas, como Chico Buarque de Hollanda, não acredito e nem confio no PSDB. Esta história de ex-presidentes criarem seus institutos é também das coisas mais megalomaníacas e abomináveis de que já se teve notícia.

Avatar de Desconhecido

About Marcos Pedrosa de Souza

Marcos Pedrosa de Souza é professor da Fundação Cecierj. Tem formação em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e em letras pela Universidade Santa Úrsula. É mestre e doutor em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi colaborador de O Globo e de outros jornais e revistas. Foi professor do IBEU, da Cultura Inglesa e da Universidade Estácio de Sá.
Esta entrada foi publicada em Ruy Castro, Sérgio Augusto, Umberto Eco. Adicione o link permanente aos seus favoritos.

2 Responses to A Obra Aberta da Lava-Jato

  1. Avatar de Isabela Sá Freire Isabela Sá Freire disse:

    Pois é Marcos Pedrosa também não confio em Institutos e Palestras, mas posso dizer que não serei passiva a criação e utilização desses meios de enriquecimento, não importa de onde venha. Quero defender o meu país dos desmandos.

    Curtir

  2. Avatar de Margarida Margarida disse:

    Não conheço muito Umberto Eco, só li o popular “O Nome da Rosa” mas sei o quanto ele é conceituado. Com relação à Lava Jato e afins, não interessa, todos que roubaram tem que ir para a cadeia. Não precisa gostar do PSDB para ficar pasmo com as posturas de Lula.

    Curtir

Deixe um comentário