
Conversa com Umberto Eco sobre memória e livros (clique aqui)
A morte de Umberto Eco, ocorrida há pouco mais de uma semana, faz com que qualquer um que tenha acompanhado sua trajetória e convivido com seus escritos se sinta compelido a comentar a impressionante herança deixada por alguém que se dedicou com empenho surpreendente à escrita: seja para refletir sobre as relações entre arte e ciência, seja para incorrer em uma criação romanesca de significativo lastro. Nos obituários e textos póstumos publicados sobre o autor, apareceram os elogios e também observações críticas a um escritor cujos livros foram de qualquer jeito objeto de afeição e estima por parte de todos aqueles que apreciam os autores/teóricos que conseguem aliar erudição e inventividade. Vamos então a cada um dos segmentos que compõem o denso e extensíssimo legado deixado pelo grande mestre italiano.
Semiólogo

Outro dia falamos sobre os escritos de Roland Barthes, que se notabilizou por suas discussões e interesse pela semiologia. Mas, se houve alguém que se dedicou ainda com mais empenho aos fundamentos desta ciência, essa pessoa foi Umberto Eco. Os estudos de Eco talvez sejam extremamente técnicos e eventualmente maçantes para o leitor desinteressado pelos princípios da semiótica, mas são, a bem da verdade, as mais pormenorizadas e profundas considerações sobre o assunto já feitas e resultaram em um número grande de tratados definitivos sobre o tema.
Partindo dos escritos do pioneiro filósofo e lógico americano Charles Sanders Peirce (1839-1914), o professor italiano, que inaugurou a cátedra de semiótica na mais antiga universidade européia (a Universidade de Bolonha, onde lecionou até se despedir de nós), deu sequência aos estudos semiológicos em vários volumes. Começou por A Estrutura Ausente, livro de 1964, editado no Brasil em 1976, e seguiu com Tratado Geral de Semiótica, de 1976, lançado por aqui na mesma época. A semiologia, ciência considerada prospectivamente por Ferdinand de Saussure em suas anotações para o seu curso de linguística geral, continuaria a pontuar trabalhos subsequentes de Eco, ainda que sob uma nova abordagem que incluiria a perspectiva do leitor.
Nas escolas de comunicação nas décadas de 1970/80, o erudito italiano, que visitara o Brasil e convivera com a intelectualidade brasileira, era leitura obrigatória. No curso da PUC-RJ da década de 80, havia um culto às suas discussões semiológicas. Quem me apresentou particularmente aos textos do autor e fez a minha iniciação ao mundo do teórico foi a muito querida professora Rosângela Araújo. Convivi com seus textos ao longo de toda a graduação e quando estava fazendo a monografia de final de curso, voltei a eles. Queria escrever sobre o cinema de Glauber Rocha e julguei que seria pertinente tentar entender como se estruturava a linguagem cinematográfica.
As discussões de Eco se insinuavam como perfeitas para embasar teoricamente o trabalho monográfico, ainda que o espaço de tempo de um semestre não tenha sido suficiente para aproveitar consequentemente as ponderações do teórico. De qualquer jeito, os tratados do semiólogo me marcariam por demais e seriam mesmo incorporados às discussões de minha dissertação de mestrado sobre a tradução em meios audiovisuais.
A tentativa de Eco de estabelecer um modelo teórico que desse conta de todas as formas de troca que acontecem na comunicação é preciso e adequado a uma abordagem estruturalista, mas parece não ter conseguido fugir às suas limitações, especialmente para um autor que já havia escrito a muito citada Obra Aberta (1962). Tanto assim que, dos tratados de semiótica, ele partiria para relacionar a discussão semiológica com uma filosofia da linguagem e para investigar o papel do leitor no processo comunicacional.
Ensaísta

Retomando sua verse ensaística, Eco começou então a escrever livros especulativos e mais prazerosos de se ler como Lector in Fabula (1979), Semiotics and the philosophy of Language (1986) e Os Limites da Interpretação (1990). Este último se desdobraria em uma apaixonante discussão que resultaria no livro Interpretação e Superinterpretação (1993). Coletânea que reuniu os textos das conferências de Tanner que aconteceram em Cambridge em 1990. O professor italiano era homenageado e suas palestras foram realizadas em diálogo com outros três estudiosos do tema: Richard Rorty, Jonathan Culler e Christine Brooke-Rose. Foi um daqueles debates em que não se consegue chegar a consenso sobre coisa alguma. A proposta de discutir o assunto de qualquer jeito partira galhardamente do próprio Eco que já devia imaginar os embates que viriam pela frente e deve ter se divertido com o confronto de ideias.
O auge da carreira de Umberto Eco é certamente marcado por obras especulativas, escritas sempre, como tudo o que fez, com muita criatividade. Assim começamos com Kant and the Platypus (1997), reunião de ensaios sobre linguagem e cognição, seguimos com Quase a Mesma Coisa (2003), sobre o trabalho tradutório, e chegamos ao extraordinário História das Terras e Lugares Lendários (2013). Trata-se de uma das várias (e belissimamente ilustradas) obras de um erudito que consegue discorrer sobre temas como cartografia e as crenças sobre as características esféricas da Terra, bem como os lugares em que se passam as narrativas de Homero.

Ilustração do livro “História das Terras e Lugares Lendários”, de Umberto Eco, com exemplo da cartografia em seus primórdios. O “mapa em T” representa, na linha horizontal, à direita, o Nilo e, à esqueda, o mar Negro. Na vertical temos o Mediterrâneo. Em cima, a Ásia e, abaixo, Europa e África.

Há ainda Sobre a Literatura (2002), digressões variadas sobre o exercício de escrita por autores inevitáveis (Shakespeare, Dante, Karl Marx, Oscar Wilde e James Joyce). Cito por fim On Beauty (2010) e On Ugliness (2011), dois outros livros ilustrados, que infelizmente nunca comprei pois achei excessivamente caros quando dos seus respectivos lançamentos, distribuídos em livrarias por editoras que não têm pena do bolso dos leitores.
Romancista

O obituário do New York Times desencavou, o que é salutar em um apanhado sobre um autor, os ataques de Salman Rushdie ao romance O Pêndulo de Foucault (1988), publicados em uma resenha do London Observer na época do lançamento do livro. Foi o suficiente para o editorialista da Folha de São Paulo Marcelo Coelho sair à caça de aspectos problemáticos nos livros do autor. Além de Eco ter identificado, de maneira errônea segundo Coelho, pontos positivos no âmbito da cultura de massa em Apocalípticos e Integrados (1965), o escritor produziu, “com resultados insatisfatórios” de acordo com o articulista, um produto híbrido entre a “alta” e “baixa” cultura com seu romance best-seller O Nome da Rosa (1980).
Coelho gastou ainda uma coluna inteira para mostrar os descaminhos de Número Zero (2015), última obra ficcional de Eco, e espera que o legado do escritor italiano seja maior do que o fato de ter inaugurado, com O Pêndulo de Foucault, a tradição na literatura da moda dos títulos implausíveis, que teria sequência, de acordo com o colunista da Folha, com O Atiçador de Wittgenstein, O Cachorro de Rousseau e O Relógio de Cuco de José do Patrocínio.
Ainda que eventuais questões críticas pontuais possam ser reconhecidas na obra romanesca de Eco, não podemos esquecer das criações mais significativas do autor. Além de O Nome da Rosa (aquele livro que foi lido por mais de 10 milhões de leitores em 30 idiomas ao redor do planeta) obras literárias que consagraram um escritor que gostava de mistura um saber erudito com histórias de tons narrativos variadíssimos. Obras como A Ilha do Dia Anterior (1995), com suas referências às clássicas aventuras marítimas, Baudolino (2000), que nos conduz à Idade Média de uma forma bem distinta de O Nome da Rosa, e A Misteriosa Chama da Rainha Loana (2005), em que surge uma espécie de alter ego do escritor, um senhor que perdeu a memória afetiva e tenta reconstituir sua história pessoal na Itália do século XX. Todas obras de fôlego, as duas primeiras em tradução caprichada de Marco Lucchesi e a última vertida por Eliana Aguiar, dois tradutores que cuidaram recorrentemente dos escritos de Umberto Eco.


Que delícia agora quero ler o mais que puder de Eco tomara que dê tempo .Excelente comentário muito informativo e interessante.
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