Nada como um recesso para termos um reencontro de verdade com o prazer da leitura. Leitura de livro, bem entendido. Antigamente as pessoas falavam em uma tal de “maquininha de fazer doido” para se referir à televisão. A definição parece mais apropriada para caracterizar uma outra invenção da modernidade, a Internet. Ela está fazendo com que deixemos de lado, esqueçamos, o encanto fundamental da leitura de livro, aquele feito de papel e cola, se é que alguém ainda se lembra dele. É verdade que atualmente ouço muito mais do que leio, viciado que estou nos áudio-livros da Librivox e da Audible. Mas Caetano Veloso está coberto de razão ao falar do grande amor táctil que votamos a este objeto de inacreditáveis qualidades transcendentes e de cujas características físicas às vezes não se pode prescindir sem que eles percam toda sua graça.
Quando esbarramos com um novo livro de Ruy Castro, então, esta sensação é intensificada em razão do cuidado único que a editora Companhia das Letras (que trata o autor a pão de ló) dedica a cada uma de suas obras. Elas merecem. Assim, a fascinação com “A Noite do Meu Bem”, lançado no finalzinho do ano passado pela editora de Luiz Schwarcz, começa em pé, dentro da livraria. Antes mesmo de adquirir o livro já nos pegamos embevecidos a folhear aquele volume com arrojadíssimo projeto gráfico-editorial. A escolha das fotos, a vivacidade das legendas (nunca gratuitas), os elaboradíssimos índices remissivos (neste volume há até uma “cançãografia”), tudo colabora para transformar a obra em um vasto território para os instintos exploratórios do leitor antiquado.
Além disso, há o texto sempre espirituoso de Ruy Castro, capaz de despertar o interesse até daqueles que, como Lucio Rangel e Stanislaw Ponte Preta, trocariam com facilidade as noitadas regadas a samba-canção (assunto central da obra que leva o subtítulo de “A História e as Histórias do Samba-Canção”) por um jazz after midnight (jam para os íntimos) à beira da piscina do Hotel Glória. E é assim que seguimos o convite da contracapa e mergulhamos de cabeça no ambiente agitado do Night and Day, situado no segundo piso do majestoso edifício Serrador na Cinelândia, do Sacha´s, do Fred´s, do Casablanca, do imponente Monte Carlo, com uma estrela de neon verde que podia ser vista de toda a Zona Sul, do diminuto Chez Colbert, que reencarnaria no Little Club, e do Baccara. Um mapa no caderno de fotos no meio do livro situa cada um deles, a quase totalidade em Copacabana.
Vivenciamos ainda (e principalmente) a ascensão e queda, com fim dramático, do Vogue, na Princesa Isabel, de frente pra praia, talvez o mais badalado dos nightclubs que fizeram a alegria dos notívagos que frequentavam as noites cariocas entre 1946 e 1965. Não podia imaginar que houvesse tanto o que contar e Ruy Castro sabe ir reservando para cada momento do livro um destes episódios que custamos a crer que aconteceram de fato.
A vida sofisticada dos irmãos Carlinhos e Jorginho Guinle com a rivalidade entre as suas respectivas e pra lá de glamorosas esposas. Uma egípcia, e a outra, norte-americana. A amizade do primeiro com Dorival Caymmi, que sempre foi para mim muito mais carioca e copacabanense do que baiano. As trajetórias de Doris Monteiro, Maysa, Dolores Duran, todas com passagens antológicas. O mesmo vale para a carreira de Dick Farney, Ibrahim Sued e Antonio Maria. Os momentos conturbados da vida conjugal de Herivelto Martins e Dalva de Oliveira, que já foram narrados em especial de TV, são relembrados pela pena inspirada do autor. Como fã de Ary Barroso, me deliciei com passagens de sua vida de compositor, figura iconoclasta da noite e narrador de futebol. Uma novidade saber das narrações de jogos de futebol com dois locutores, como na final da Copa de 1950 em que Ary narrou os ataques brasileiros e Antonio Maria, os uruguaios.
Não fazia ideia da importância de Humberto Teixeira, que, segundo nos conta Ruy, era autor solitário das composições assinadas com Luiz Gozanga, que respondia apenas pela “sanfonização” das músicas que “compunham em parceria”. Em postagem anterior já disse que acho o arranjo tão importante quanto a música e a solidariedade da assinatura de Gonzagão é merecida. Mas foi uma surpresa saber que Humberto Teixeira era um intelectual, folclorista, que fazia letra e música ao piano e que foi quem levou a sanfona de Luiz Gozanga dos tangos, fados e fox-trotes, para o mundo do baião. Já incorri em muitos spoilers deste livro delicioso. O melhor é lê-lo, folheá-lo e conferir as imagens vintage-retrô dos cadernos de fotos. Boa leitura e bom divertimento.


Eu quero, me empresta… Tá passando um filme sobre o livro eu acho. Sábado às 10:30 no Estação Ipanema o Rui Castro comentou o livro numa sessão com a platéia.
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