Piketty – Renda e Riqueza, Ontem e Hoje

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Entrevista de Thomas Piketty no programa “Roda Viva” (clique aqui)

Estou chegando atrasado para comentar “O Capital no Século XXI” (Intrínseca, 2014; com excelente e cuidadosa tradução de Monica Baumgarten De Bolle), de Thomas Piketty, lançado no final de 2014 no Brasil. Extraordinariamente bem escrito, o livro mostra que bons escritores podem se esconder até mesmo em nichos áridos como os dos estudiosos de economia. Tenho esbarrado com muitos que reagem negativamente quando falo do meu completo arrebatamento pelo livro. Como um vizinho, que comentou: “já sei, aquela velha balela sobre desigualidade”. Não podem imaginar o quanto estão enganados e do muito que estão perdendo. Trata-se de uma minuciosa e esclarecedora análise sobre o mundo contemporâneo.

Como dado adicional, Piketty é um craque do estilo e transforma um assunto chato e complicado como economia, em algo claro, compreensível e fascinante. Penso mesmo que tenha lastro pra se aventurar por áreas em que a imaginação fale mais alto, como o ramo da escrita não-acadêmica. Seu objetivo com o livro de qualquer jeito é justamente, e ao contrário da crença de meu vizinho, mostrar o quanto a competitividade pode ser benéfica para uma sociedade. Faz isso, investigando renda e riqueza.

Em resumo, Piketty quer saber o quanto, ao longo do curto espaço de tempo de nossas míseras existências, convertemos, como fruto e resultado de nosso esforço pessoal, em riqueza. Sua intenção é mostrar como uma sociedade altamente competitiva e meritocrática pode trazer resultados positivos para toda a coletividade. Por isso, quer colocar às claras os aspectos nefastos daqueles que vivem em inércia completa, usufruindo do dinheiro e das riquezas alheias, sem trazer contribuição alguma para o todo social. Prova, desta forma, como o acúmulo de riquezas, concentradíssima nas sociedades contemporâneas, gera cidadãos nada propensos ao trabalho. Todos preferindo, como os personagens de Balzac e de Jane Austen, viver de renda, de um bom casamento ou de uma herança, a ter de encarar a dureza do dia a dia.

Intelectual consagrado no meio em que trânsita, Piketty pode ficar à vontade para falar sobre o assunto, amparado que está em sua brilhante trajetória pessoal. Aos 22 anos, com um doutorado no bolso, ele já estava dando aulas em centros de pesquisa de ponta nos Estados Unidos. Aos 25 podia escolher a universidade em que queria lecionar. Aos 45, é um autor best seller, escrevendo sobre um assunto pouco convidativo como economia. Um feito. Em um momento no começo do livro, com a classe que percorre todo o volume, ele fala um pouco de seu percurso: “Meu sonho quando lecionava em Boston” (reparem que este vago “em Boston” quer dizer na verdade no “MIT”) “era voltar para a École des Hautes Études en Sciences Sociales, uma instituição cujos expoentes incluem Lucien Lebvre, Fernand Braudel, Claude Lévi-Strauss, Pierre Bourdieu, Françoise Héritier, Maurice Godelier e tantos outros. Será que devo confessar isso, arriscando-me a parecer arrogante na minha visão das ciências sociais?”.

Um dos charmes do livro é a destreza com que o autor espalha por seu texto, sempre com vasta e justificada carga de pertinência, exemplos tirados da literatura (Balzac, Austen, Henry James, Proust), de séries televisivas atualíssimas (“House”, “The West Wing”, “Bones”, “Damages”, “Dirty Sexy Money”) e de acontecimentos recentes como o movimento do “Occupy Wall Street”, de 2011, ou uma greve de mineiros na África do Sul, ocorrido em 2012. Colaborador do Le Monde e do Libération, Piketty sabe lançar mão de certa erudição e do factual para tornar mais interessante sua escrita.

Além dos casos citados, chega ainda a falar de um fenômeno típico dos dias de hoje como o dos executivos de grandes corporações (dentro e fora da iniciativa privada), que têm poder para estabelecer e inflar por conta própria, sem nenhuma restrição e justificativa concreta, suas remunerações. Pena o Brasil não aparecer em seu estudo: a horda de tecnocratas de Brasília, seria outro ótimo exemplo. Aliás, José Dirceu, Eduardo Cunha e cia. dariam outros excelentes tópicos atuais para se falar sobre acumulação de riqueza de forma rápida e jogando contra toda a coletividade.

Curioso contrastar o que disse Piketty sobre a trajetória de um executivo como Bill Gates e o que comentou o próprio Gates sobre “O Capital no Século XXI”. Sem papas na língua, à página 433, nos diz o pesquisador: “Em alguns momentos temos quase a impressão de que Bill Gates em pessoa inventou a informática e o microprocessador, e que ele seria 10 vezes mais rico se tivesse recebido integralmente sua produtividade marginal e o valor correspondente à sua contribuição pessoal para o bem-estar no mundo (felizmente, as boas pessoas do planeta puderam se beneficiar das generosas externalidades). (…) Sejamos francos: não sei quase nada sobre a forma exata como Carlos Slim e Bill Gates enriqueceram e sou incapaz de dissertar sobre seus respectivos méritos. Contudo, me parece que Bill Gates também se beneficiou com uma situação de quase monopólio sobre os sistemas operacionais (o mesmo vale para muitas das fortunas construídas pelas novas tecnologias, das empresas de telecom ao Facebook)”.

Na contracapa do livro, Gates comenta a obra do economista em tom elogioso para surpresa geral: “Concordo com as principais conclusões de Piketty. Espero que seu trabalho estimule pessoas competentes a estudar a desigualdade de riqueza e renda. Quanto mais entendermos das causas e curas, melhor”. Ao que tudo indica, Thomas Piketty conseguiu ser convincente até mesmo aos olhos de um dos maiores e mais rápidos fenômenos de acumulação de riqueza que o mundo viu.

Primeiro pesquisador a trabalhar durante 15 anos sobre os dados referentes às rendas e riquezas acumuladas por  pessoas e empresas (obviamente sofrendo as restrições do que é declarado), Thomas Piketty contou em seu estudo com a ajuda de pesquisadores ao redor do mundo para averiguar a lógica que orienta as dinâmicas patrimoniais. Sua pesquisa investigou os cenários econômicos em mais de 20 países no correr de três séculos. Suas análises estão amparadas no “The World Top Income Database” (clique aqui), banco de dados que vem coletando informações sobre renda e patrimônio no mundo. Infelizmente, a Argentina foi o único país da América do Sul a participar da pesquisa. Parece que há uma compreensível dificuldade de se conhecer os dados sobre a situação brasileira. Pelo menos o TWTID já conseguiu começar a coletar alguns dados sobre o cenário brasileiro. Aparecemos por lá, sob a legenda de “work in progress”, ao lado de outros países sobre os quais Piketty e sua equipe passaram a reunir informações depois de encerrado o livro. É um começo.

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About Marcos Pedrosa de Souza

Marcos Pedrosa de Souza é professor da Fundação Cecierj. Tem formação em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e em letras pela Universidade Santa Úrsula. É mestre e doutor em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi colaborador de O Globo e de outros jornais e revistas. Foi professor do IBEU, da Cultura Inglesa e da Universidade Estácio de Sá.
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3 Responses to Piketty – Renda e Riqueza, Ontem e Hoje

  1. Avatar de ana maria pedrosa sa freire de souza ana maria pedrosa sa freire de souza disse:

    Muito esclarecedor seu artigo sobre Piquety. Bem escrito.

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  2. Avatar de Regina Cocking Regina Cocking disse:

    Muito bom o seu artigo.

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  3. Avatar de Margarida Margarida disse:

    Ok me convenceu, vou ler.

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