Blur em Buenos Aires

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Trecho do Blur ao vivo na Argentina (clique aqui)

Temporada sortida daqueles shows que já nascem antológicos. Semana passada não resisti e fui até Buenos Aires ver como está o Blur depois da retomada da carreira com “The Magic Whip”, disco lançado no começo deste ano. Não entendi por que eles não abriram datas para apresentações no Brasil dentro da turnê sul-americana que passou por Chile, Argentina e seguiu para o México. Talvez estejam escaldados de um show que fizeram aqui no Rio em 1999 em que o Damon Albarn teve mesmo que perguntar à platéia de pouquíssimos gatos pingados que compareceram ao Metropolitan: “Where are your friends?”. Em 2013, eles tocaram para um público significativo em São Paulo, mas tudo aconteceu dentro de um evento grande como o Festival Terra. Esta semana, eles irão se apresentar ainda em Los Angeles, no Hollywood Bowl, e encerrarão a turnê na sexta-feira no Madison Square Garden, em Nova York. Deu vontade de ver de novo.

Em Buenos Aires, o concerto do Blur aconteceu em Tecnópolis, uma quermesse brega e futurista criada pelos Kirchner na periferia da cidade. Na entrada somos recepcionados por um dinossauro gingante abanando a cauda próximo a um avião das Aerolíneas Argentinas aberto para a visitação da criançada. Depois de andar muito chega-se a um galpãozão com uma precária estrutura de andaimes, dessas que se montam para eventos esportivos na praia, onde cabiam perto de 5 mil pessoas, imagino. As cadeiras demarcadas para sentar, no estilo das antigas arquibancadas do Maracanã, estavam cheias, mas não lotadas como os espaços das duas áreas (vip e comum) para os que quiserem assistir em pé na parte central da arena.

Albarn e o Blur seguem a linha evolutiva do Brit-Pop que tem em Terry Hall, Robert Smith e Morrissey três outros de seus grandes nomes. O que me faz sair de casa para ver qualquer um deles cantando é o fato de, além de serem compositores-letristas excepcionais (Smith e Morrissey acertam mais nas letras, embora os outros dois não deixem a desejar), saberem cantar como poucos. Têm a pegada dos verdadeiros crooners. Por isso, em cada apresentação, as melodias conhecidas ganham sempre algum ar novidadeiro. Vi, por exemplo, Robert Smith apresentar a surrada “Killing an Arab” no HSBC Arena em 2013, recriando sua linha melódia e a colocação de voz de tal forma que pareceu uma música nova pra mim.

Ainda que aprecie todos os discos de Morrissey (com ou sem os Smiths) e os do Blur (mesmo o “Think Tank”, realizado apenas por três de seus integrantes; o guitarrista Graham Coxon parou as gravações no meio para fazer reabilitação por dependência de álcool), gosto particularmente dos trabalhos realizados com um produtor que faz, realmente, grande diferença: Stephen Street. É ele que assina a produção do novo “The Magic Whip” que ganhou toda a crítica. No show, eles tocaram cinco das novas composições: “Go Out”, “Lonesome Street”, “Ghost Ship”, “Thought I was a Spaceman” e “Ong Ong”. As três últimas acabaram, infelizmente, barrando as melhores “I Broadcast”, “Mirror Ball”, “There are Too Many of Us”, favoritas do novo repertório.

O Blur tem uma coleção tão extensa de ótimas músicas que o fã gostaria ainda que houvesse uma maior alternância no roteiro das apresentações. Em Córdoba na noite anterior, a esquecida “Advert” entrou no set list junto com “Caravan”. Esta última, eles não apresentavam ao vivo desde 2003 e voltou a ser interpretada em Buenos Aires. Dias depois, cantaram “Country Sad Ballad Man”, no México. Antes do show mandaram “Vila Rosie” na passagem de som. Para a listagem completa ver o site setlist.fm (http://goo.gl/3L8JW5).

Aguardemos agora pelo Morrissey que baixa por aqui em novembro para apresentações em São Paulo e no Rio. O ex-vocalista dos Smiths passou por um câncer de esôfago, mas está ótimo como contou em  programa recente com Larry King na Internet (clique aqui). Não confio na qualidade do som do Metropolitan (ex-Citibank Hall) e por isso já garanti meu ingresso para SP. Como a Fundição Progresso, costuma derrubar o espetáculo. Aliás, os argentinos fazem som de palco como poucos. Excelente a qualidade sonora do show do Blur na arena em Tecnópolis. Nem em apresentações na Inglaterra vi algo tão bem equalizado.

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About Marcos Pedrosa de Souza

Marcos Pedrosa de Souza é professor da Fundação Cecierj. Tem formação em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e em letras pela Universidade Santa Úrsula. É mestre e doutor em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi colaborador de O Globo e de outros jornais e revistas. Foi professor do IBEU, da Cultura Inglesa e da Universidade Estácio de Sá.
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