Cobertura do Trendnotes para a Bienal de Veneza (clique aqui)
Não entendo quase nada de artes plásticas, embora tenha gosto pelo assunto. Me sirvo como guia nestas horas dos conhecimentos do meu expert favorito nesta área, o escritor Ferreira Gullar. Tive mesmo o privilégio de participar de um curso ministrado pelo poeta maranhense na Casa do Saber há alguns anos, oportunidade em que ele fez um muito instrutivo apanhado sobre a história das muitas escolas de pintura e de seus maiores expoentes. Gullar discorreu ainda sobre a jovem cultura brasileira no campo das artes plásticas e de sua participação como crítico em meados dos anos de 1950 com o movimento neoconcretista em meio a um cenário com a presença de artistas inovadores como Hélio Oiticica e Lygia Clark. Fiquei surpreso, no entanto, quando da abordagem sobre a tradição da escola espanhola, com o fato de Gullar não saber da existência de um texto genial de Michel Foucault sobre “As Meninas”, de Velásquez, ensaio que abre o livro “As Palavras e as Coisas”.
Como minha família é de classe média, bem média mesmo, passei infância e adolescência consumindo apenas cultura de massa, todo aquele lixo cultural problematizado por Walter Benjamin, um dos mais inspirados alunos da Escola de Frankfurt, em suas considerações sobre a obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. Por isso, só fui ter o interesse despertado para a fruição de quadros nos bancos universitários. Especificamente por causa de uma cadeira de “Estética da Comunicação” ministrada pela professora Rosângela Araújo na PUC do Rio de Janeiro. Em um período em que viajar ao exterior era um luxo para poucos (bem diferente de hoje quando qualquer professorzinho consegue fazer a sua viagem todo ano), Rosângela já havia corrido todos os mais importantes museus da Europa de onde trouxe, para projeção em suas aulas, coleções de slides com imagens dos acervos das principais instituições que havia visitado.
Em cada encontro com os alunos, sempre vestida com aquela classe das personagens mais chiques das estórias de Clarice Lispector, discorria com lastro e erudição rara sobre as obras de Da Vinci, Botticelli, Bosch, Dalí e Escher, misturando discussões de matiz psicanalítico (ah, a maldição de ler José Castello) com o pensamento dos teóricos em alta naquele momento (Lévi-Strauss, Umberto Eco, Roland Barthes). Guardo até hoje a folha em xerox com a listagem dos livros que embasavam suas aulas e que começavam pela tríade Sócrates-Platão-Aristóteles e chegavam a obras de pensadores contemporâneos de todas as latitudes (McLuhan, Otávio Paz, Gullar).
Isto tudo me veio à lembrança, porque este ano tive a oportunidade de pela primeira vez na vida visitar Veneza e ver a tão badalada Biennale Arte em sua 56ª. edição, tudo ao vivo e a cores. Não fazia ideia da dimensão do evento. Iniciada em 1895, a Biennale veneziana virou um atrativo a mais para aumentar a já numerosa horda de turistas que aflui à cidade, povoando de gente mesmo as vielas menos movimentadas. Além das duas extensas áreas da cidade, que guardam os pavilhões dos 89 países participantes (e pode colocar extensa nisso; são um desafio para os que quiserem se arvorar a cobri-las a pé de um só fôlego), há exposições alternativas alocadas em charmosos sobrados e históricas igrejas.
O evento, que teve início em maio e vai até novembro, durando sete meses portanto, apresenta trabalhos inovadores em suporte high-tech ao lado de pintura tradicional, bem como momentos específicos com foco na dança (aconteceu em junho), teatro (em julho e agosto) e música (de hoje até o dia 11 deste mês). A organização da Biennale, que dá atenção também à arquitetura, ao arquivo histórico e ao livro (na abertura de cada dia desta edição está acontecendo a leitura de trechos de “O Capital”, de Karl Marx), me trouxe de novo lembranças de uma exposição de artes que a Rosângela Araújo organizou na PUC e que repetia em um nível menor o espírito da Bienal de Veneza.
Foram abertas inscrições numa mesinha no pátio da PUC e apareceram obras maravilhosas de todas as áreas: Fausto Fawcett fez um de seus primeiros recitais poéticos acompanhado por um grupo de dançarinas e com fundo musical a cargo do futuro escritor e filósofo José Thomaz Brum, o professor Carlos Henrique Escobar apresentou seu espetáculo teatral “Heliogábalo”, Caetano Veloso cantou nos pilotis e foram inscritos quadros muito interessantes de novos artistas plásticos que ocuparam a Biblioteca central e vários espaços na Universidade. Muitos alunos ajudaram na preparação da semana de artes, que deu um trabalhão danado. Valeu porém a pena. Em tempo: os detalhes sobre a 56ª. edição podem ser conhecidos no site Trendnotes, em reportagem assinada por Ana Carolina Landi.



