Primeira das seis palestras de Joseph Campbell sobre Joyce (clique aqui)
Mês de junho é sempre mês de James Joyce. Este ano, Joyce foi lembrado ao lado de um professor do passado. Lá pelos idos de 1975, a sala de aula ficava no prédio do Instituto Brasil-Estados Unidos, na Nossa Senhora de Copacabana, 690. Estávamos, salvo engano, no curso 21, depois de termos avançado, semestre após semestre, pelo aprendizado infantil do ensino colegial (do C1 ao C4) e pelo anos iniciais da formação para jovens e adultos do 11 e 12, aos quais se seguiriam o 21, 22, 31, 32, e assim por diante até o 62, completando 6 anos de instrução. Era o tempo do “repeat after me”, ainda que não me lembre deste tipo de prática em sua aula. O professor usava óculos de aro arredondado, tinha cabelos longos e escorridos, andava sempre vestido despojadamente, e dava pra suspeitar que a qualquer momento fosse atacar com sua versão pessoal para “Instant Karma”.
Do espaço das salas de aula do IBEU, saltamos para os pilotis da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, instituição em que ele daria sequência ao seu percurso no magistério, agora como professor universitário integrante do quadro docente do curso de Letras da PUC. Começaria também uma carreira de enorme sucesso como tradutor, poeta, contista e ensaísta. É ao lado de Paulo Henriques Britto que vamos nos voltar para o gênio de James Joyce, que, por coincidência, foi também professor de um curso livre de inglês antes de se projetar entre os grandes nomes da literatura do século XX.
Joyce deu aulas particulares de inglês e trabalhou no curso Berlitz em Pula, na península de Ístria (então, território austro-húngaro, hoje, croata), e Trieste, no nordeste da Itália, até conseguir se cercar de mecenas que o sustentassem para dedicar seu tempo exclusivamente à preparação de suas obras. Não fosse fundamental a sua ligação com o ensino, Joyce não teria feito de seu alterego, Stephen Dedalus, primeiro, um aluno, e, depois, um professor. Além de protagonizar “Retrato do Artista quando Jovem”, em que narra seus anos de formação, Stephen Dedalus divide a atenção dos leitores com Buck Mulligan e Leopold e Molly Bloom em “Ulysses”. Comentam alguns críticos, com muita propriedade, que ele é também a provável voz narrativa dos primeiros contos de “Dublinenses”.
Paulo Henriques passou em revista em duas aulas no Polo de Pensamento Contemporâneo, centro de palestras no Jardim Botânico, os livros de Joyce com foco em “Ulysses”, cuja mais recente tradução, assinada por Caetano Galindo e lançada em 2012, foi por ele coordenada para a editora Companhia das Letras. Mostrou em suas aulas a evolução do estilo de Joyce. De uma narrativa mais linear e cujas inovações se introduziam com a exploração do discurso indireto livre, em “Retrato do Artista quando Jovem”, até a ampla utilização deste recurso com a associação indiscriminada de cenas que justapõe perspectivas narrativas distintas e circulares. Tudo caminhando para o recurso da representação narrativa do fluxo de consciência que vem de maneira radical no monólogo de Molly Bloom, capítulo que fecha “Ulysses”. Todas técnicas de escrita literária usadas por Joyce e que serão trabalhadas para criar a sensação de um sonho posteriormente em “Finnegans Wake”. Para surpresa de muitos dos presentes, o monólogo de Molly Bloom, momento máximo da ousadia joyceana, foi identificado como, de longe, o mais prazeroso para o leitor e o que se torna compreensível sem a exigência de recorrer aos guias explicativos dos muitos comentadores dos escritos do autor.
Para contrariedade de alguns dos presentes, o professor-anfitrião apresentou Dedalus como um personagem tedioso. Se como leitores não sobrepuséssemos a imagem de Stephen Hero, ou de Stephen Dedalus, a de Joyce, talvez fosse fácil concordar com o palestrante. Temos que nos lembrar, no entanto, que Joyce está falando do ensino na Irlanda do fim do século XIX, o que pode eventualmente propiciar a projeção de uma imagem enfadonha sobre um de seus protagonistas. Peguem por exemplo, a autobiografia de outro Stephen ilustre, mais conhecido por seu sobrenome, Morrissey (“Irish blood, English heart”). Nascido em Manchester, filho de pais irlandeses, Stephen Patrick conta em seu livro de memórias, “Morrissey Autobiography” (Penguin Classics, 2013), como foi sua educação entre os anos 1960-70 no norte da Inglaterra. Quase um século depois de Joyce, Morrissey viu e enfrentou humilhações inacreditáveis (palmatória inclusive), que estiveram bem longe de quem frequentou, no mesmo período, o ensino experimental (era o nome que usavam) do Colégio Brasileiro de Almeida, no Rio de Janeiro.
Da palestra de Paulo Henriques, passamos para as seis conferências sobre Joyce proferidas por outro professor ilustre: Joseph Campbell. Campbell, com vasta produção acadêmica sobre mitologia, é daqueles eruditos universitários que fazem a alegria das suas plateias unindo sofisticação teórica com análises inspiradíssimas. Conhecidas inicialmente apenas em áudio no percurso para dar aulas universitárias em Niterói, na Barra da Tijuca e em Madureira, essas conferências podem ser vistas agora na Internet (link acima). Apenas com o áudio, a impressão que Campbell deixava em alguém que o desconhecia por completo era a de um professor de universidade californiana em pleno movimento do flower-power. Na realidade as palestras, proferidas em data bem anterior a 1987, ano da morte de Campell, são extremamente formais como se comprova através destes registros em filme.
Para Campbell, o modelo que Joyce adota em seu trabalho tem como espelho a obra de Dante Alighieri. A narrativa de Dante em “La Vita Nuova”, discorrendo sobre a presença física de sua Beatrice e, depois de sua morte, procedendo a idealização de sua figura, é replicada por Joyce para falar da trajetória pessoal de Stephen Dedalus em o “Retrato do Artista”. “Ulysses”, por seu turno, nos levaria ao “Inferno” e ao “Purgatório” da “Divina Comédia” de Dante. E, com “Finnegans Wake”, chegaríamos ao paraíso terrestre no ponto mais alto do purgatório. O “Paraíso” estaria reservado para a última obra a ser preparada por Joyce. Com o seu falecimento, por complicações decorrentes de uma cirurgia aos 59 anos, acabamos por não conhecê-la. Que fique bem entendido que esta obra final é fruto de uma especulação pessoal de Campbell.
A epígrafe que abre o “Retrato do Artista quando Jovem”: “E ele devotou seu espírito a artes obscuras” (citação do Ovídio de “Metamorfoses”), orientaria toda essa trajetória. A apresentação muito erudita desta visão de Campbell seria bem aceita, não fosse um pequeno senão em um trecho de uma de suas seis palestras. Comentando indiretamente a morte de Martin Luther King, Campbell faz a condenação dos estudiosos que enxergam sociologia em tudo, tendência que marcou a universidade no mundo todo a partir de meados do século passado. É difícil, no entanto, aceitar a universidade como espaço exclusivo para a realização de projetos e carreiras de cunho personalista que se distanciam do ambiente social em que estão inseridos. Edward Said, um intelectual de perfil acadêmico, mostrou em sua carreira opções consequentes para aproximar erudição e atuação política por parte de um scholar vinculado ao seu tempo. A posição de Campbell de qualquer jeito não tira o mérito e interesse por suas considerações elaboradíssimas sobre Joyce e seus escritos. Não se deve perder a oportunidade de conhecê-las.





Interessante o artigo, que traz luz a essa obra de Joyce que é um grande desafio para os que ousam enfrentar a sua leitura.
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