– Rogério Durst, meu querido, uma Malzbier, por favor.
– Malzbier não temos, amiguinho, só cerveja. Serve?
– Melhor. Desce uma, desce duas, desce todas.
– É pra já.
Vamos secar umas geladas e brindar: “a alguém, a alguma coisa, a algum lugar”. Tim-tim então para a pessoa do escritor Carlos Emílio Lima, autor de “A cachoeira das eras”. Tim-tim também para o CEP 20000. E, finalmente, tim-tim para o Espaço Cultural Stanislaw Ponte Preta, a ex-sala Sérgio Porto. Copo de botequim em punho, rejubilemo-nos todos sob a égide cretense do Minotauro-Casas-Turuna do poeta Chacal. Afinal, são 25 anos desde que o CEP 20000 surgiu com seu nome menos bossa nova e mais rock`n´roll em uma mesa do bar e restaurante Sagres no Baixo Gávea. Mesa compartilhada por Chacal com seus amigos Guilherme Zarvos, detentor à época de uma inseparável echarpe-âncora que domesticava sua cabeça voadora, e com o poeta parnasiano Carlos Emílio Lima, então o proprietário do sovaco mais ilustrado do país. Coube a este último a escolha do nome para o Centro de Experimentação Poética, batizado com o adendo da referência ao número de endereçamento postal do Rio de Janeiro.
Esta e outras passagens antológicas do nascimento do CEP 20000 são relembradas por Chacal em seu segundo e novíssimo espetáculo teatral memorialista, “XXV”, que se segue à autobiografia “Uma história à margem”, encenada em 2013. Ele passou há pouco pelo Sesc Copacabana e voltará em novas apresentações (notícias pela página do Chacal no Livro-de-Caras: clique aqui). Enquanto isso, o CEP segue com suas edições mensais, agora com sua quarta geração de artistas, sempre na última quinta-feira de cada mês.
É umas dessas coisas boas da vida cultural carioca. Surgiu ali no ano de 1990, um pouco depois do Cineclube Estação Botafogo. No Estação, frequentávamos a nossa escolinha de cinema, passando em revista todo o expressionismo alemão e a cinematografia dos grandes diretores/autores da sétima arte. Por lá nos mantínhamos também em dia com as apostas dos velhos e novos cineastas nas mostras e festivais que tinham lugar em suas muitas salas. Foi ali que vimos e babamos na gravata com o “Asas do desejo”, de Wim Wenders, em sua primeiríssima exibição em nossas telas. Saímos todos maravilhados. Enquanto isso, o CEP ia fazendo sua história.
Além de narrar os momentos decisivos e turbulentos pelos quais navegou seu experimento poético-musical, o nosso mestre de cerimônias recria performances e intervenções que tiveram lugar na arena do Humaitá. Como aquela em que Chacal homenageia a performer Marcia X, falecida em 2005. Em cena, manipula os lovely babies da artista. Reprisa o ritual kama Sutra com as bonequinhas movidas à pilha e encerra tudo com um nu selvagem e primal em encenação Zen Nudista. Nessa altura do espetáculo, o público está totalmente envolvido e à vontade com a descontraída conversa de Chacal que já colocou como num truque a todos no bolso. Dessa passamos ao concurso de mergulho ridículo com adesão e participação ativa da plateia, que é convocada a tomar parte e acaba se engajando naturalmente em várias cenas. Não poucos dos presentes se prontificam a se lançar em um colchão-mar simulando hilárias cabriolas quamperinas.
Chacal traz à cena ainda personagens do seu repertório, como o márrico (caprichem no portunhol) Mago Magu e o palhaço Piroquinha. Distribui também cacos dos personagens dos amigos que passaram pela cena aberta do CEP nesses 25 anos, como o Jacareta de Manu Melo, um jacaré careta parceiro dos atos falhos.
Em imagens gravadas ao longo das duas décadas e meia de atividade, os artistas, muitos deles presenças constantes quase como residentes do CEP, ajudam a relembrar as noitadas etílico poéticas. Gente muito inspirada como o lunático Joe Romano (em imagens da TV Pinel) e o professor Ericson Pires. Este último, colega de batalha universitária, falecido em 2012, protagonizou uma das muitas tentativas de aproximar Chacal e o CEP do meio acadêmico. Ericson é conclamado emotivamente por Chacal para recitar o seu “Novas tecnologias” em performance gravada em 2008.
Especialmente interessante no espetáculo é a participação do jovem artista plástico Domingos Guimaraens, primeiro lembrando um divertidíssimo diálogo do poeta Guilherme Zarvos com uma atendente do Ecad. Depois ajudando Chacal em um trabalho de luz sobre uma tela fotossensível que registra fugazmente o que nela é projetado. Sobre essa imagem, as silhuetas ganham contornos luminosos fortes quando sobrepostas por um foco de luz de uma diminuta lanterna usada pelo poeta, aqui no papel de arteiro performer. Em material gravado, vemos ainda os autores hoje conhecidos que se iniciaram no CEP, como Michel Melamed e Gregório Duvivier. As poesias de Gregório Duvivier, depois de recitadas no CEP, iriam circular em “partituras impressas”, como Chacal se refere aos livros editados com os novos autores cepianos, e consagrar um dos grandes poetas da nova geração.
Rogério Durst certamente diria que, além de sua verve poética única, de sua simpática presença, Ricardo Chacal tem a qualidade rara de ser o poeta menos pretensioso de nossa cena sub-sub-pop-underground. Não é pouco. Um brinde a ele. Aguardemos novas encenações desse “XXV” que faz um bem danado ao espírito.



