Na última semana e durante um bom tempo ainda, imagino, meu único assunto tem sido e será o Rogério Durst. E a razão é simples. Quando perdemos alguma pessoa por quem temos grande estima, ficamos com vontade de conversar sobre ela o dia inteiro, o tempo todo. Aconteceu quando perdi minha primeira mulher, Elizabeth Wester, com quem havia convivido e compartilhado uma experiência de 25 anos de vida. Na época, me lembro que eu andava por tudo quanto é canto procurando, mendigando, a atenção de alguém com quem pudesse relembrar alguma coisa sobre aquela criatura querida que havia desaparecido de repente de minha existência. O pior é que para a maioria das pessoas, esse sentimento não fazia o menor sentido. Houve aqueles que chegaram mesmo ao extremo, e falo de pessoas que conheceram bem minha primeira mulher, de nem sequer dizer alguma coisa. Nem telefonaram. E quando liguei para informar, a sensação que tive foi a de que as estivesse mesmo importunando com aquela notícia/lembrança desagradável. Outras foram amigas ao extremo e me ajudaram com a maior atenção no meu período de luto, sou muito grato a elas.
Nessa época vivi uma epifania na rua que me fez imaginar que o Sérgio Buarque de Hollanda talvez estivesse de todo errado e vendo fantasmas quando reconheceu e quis menosprezar a chance de, até mesmo perdido na multidão, podermos encontrar um homem desitenressadamente cordial. A cena aconteceu na fila de uma empresa de telefonia móvel. Estava eu cumprindo mais uma das dolorosas atribuições que surgem nesses momentos, a de ter de encerrar todas as contas que ficaram, quando me vi em uma loja de celulares entupida de gente. Constrangido de ter de contar a minha história mais uma vez, informei de qualquer jeito à atendente tudo o que se tratava. Um senhor, atrás de mim, ouviu nossa conversa e, ainda que fôssemos dois estranhos, me cumprimentou de maneira sincera e externou de forma sentida os seus pesares. Fiquei profundamente tocado com essa inesperada manifestação e saí dali acreditando que talvez ainda haja salvação para a raça humana.
Volto ao Durst. Vim a conhecê-lo em 1985, 1986, na redação da Revista de música “Roll” já então em uma casa na rua Paulo de Frontin, no Rio Comprido, depois de a revista ter passado por salas em um prédio comercial na Marechal Floriano, no centro. O Rogério apareceu por lá trazido pelo Luiz Carlos Mansur, com quem eu tinha uma convivência muito próxima naquela época pois já estávamos há mais de um ano frequentando a redação. Me divertia a valer com o Mansur e não seria diferente com o Durst e ainda com o Leonardo Pimentel. Era um grande prazer, uma alegria trabalhar naquela espelunca. Aliás, as conversas na redação ou na rua ficaram sempre como as melhores coisas do período de militância no jornalismo. Depois disso o Mansur e o Durst foram para o Jornal do Brasil e o Tom Leão e eu, para O Globo. Voltei então a encontrar com frequência com o Durst correndo as salas de exibição e eventos de divulgação para dar conta de pautas que iriam ajudar a encher os cadernos de cultura do fim de semana.
Ainda que tenha escrito eventualmente sobre música, a praia do Rogério Durst foi sempre a sétima arte como bem destacou a Cora Rónai. Era um apaixonado por todo tipo de cinema, dos filmes udigrudi às megaproduções, dos clássicos aos filmes trash, das comédias bobas de Hollywood às chanchadas da Atlântida, bem como espectador, com muito gosto, de toda a variedade do cinema brasileiro e, como contou um amigo, também dos enlatados de TV. É verdade que não era benevolente com nada e nem com ninguém. Perdia o amigo, mas não perdia a piada. Em hipótese alguma. Fez uma carreira brilhante escrevendo as melhores resenhas de filme dos jornalistas de sua geração. Capaz de se equiparar aos maiores nomes de toda a crítica brasileira (Alex Viany, Paulo Emílio Salles, Ely Azeredo, Sérgio Augusto, Ruy Castro, José Carlos Avelar, Susana Schild). Tinha uma escrita de graça única.
Quando o Jornal do Brasil, que era então no Rio de Janeiro objeto de culto com seu imponente prédio no número 500 da Avenida Brasil, deu início ao seu processo de falência, começou a migração de todo o corpo de jornalistas do JB para O Globo. Um dia cheguei à redação e quem estava por lá sentado em frente a um terminal? Rogério Durst. Tinha vindo para cuidar do Caderno de Informática convidado por Cora Rónai. Editores e chefes de reportagem do caderno de cultura logo perceberam as qualidades de seu texto, mas o jornal já estava bem servido de críticos cinematográficos. Foi só com a aposentadoria de Paulo Perdigão, que ele veio a assumir a seção dedicada às sinopses dos filmes da TV, o que tinha feito no JB. De O Globo, foi brilhar na seção de cinema nas páginas lustrosas da Vejinha-Rio.
Chega um momento na vida em que começamos a querer reencontrar as pessoas com quem convivemos no passado. Pode ser qualquer pessoa. O porteiro de um prédio em que você morou, o jornaleiro da banca onde você sempre comprava jornal, os atendentes do bar que você frequentou. Com os amigos que cruzaram seu caminho então nem se fala. Procurei vários amigos que não via há séculos. Alguns, compreensivelmente, já estavam em outra frequência e não queriam nem lembrar de nada. Estavam a bem da verdade pagando para esquecer tudo. Outros, como o Rogério Durst, pelo contrário, ficaram interessados em também conversar. Ele tinha então saído da Vejinha-Rio. Por e-mail, me informava com o humor característico: “levei um pé na bunda da vejinha (agora sob nova gerência) e ando bastante desempregado desde então. o mercado está uma bosta então estou em casa, costurando pra fora quando pinta alguma coisa, o q é um pénosaco.” Preparava um livro sobre cinema. Para poder usufruir do prazer da convivência com o Durst, sugeri, e ele aceitou, que organizássemos algumas palestras sobre cinema no centro cultural Midrash no início de 2011. Adorei as palestras, mas confesso que não achei o Rogério bem. Como só tinha contato com ele e não conhecia ninguém da família, ainda que ele contasse muito sobre sua vida caseira e comentasse o carinho especial pela enteada (que tratava como filha), resolvi comentar com alguns amigos comuns sobre a minha preocupação. A vida seguiu e continuamos trocando e-mails vez ou outra. Em setembro do ano passado estava indo ao cinema quando encontrei por acaso com o Durst saindo de um botequim na praia de Botafogo. Sua extrema magreza me assustou mas ele também me achou magro demais e a conversa fluiu bem. Me contou então que estava ajudando um dos filhos de Luiz Carlos Prestes a redigir uma biografia ou autobiografia, não lembro ao certo. Acabei chegando atrasado ao cinema. Achei ainda assim que tínhamos conversado pouco. Seria nosso último encontro. Nunca mais veria aquele amigo vivo.


Pode continuar com seu assunto, Marcos. Esta foi a melhor crônica de todas as que li sobre este assunto Durst.
Tenho total maravilhamento com momentos de epifania. Com meus e os dos outros. Adorei tudo.
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Belo texto, Marcos. Traça um bom retrato não só do Durst como daqueles tempos. E você capta bem essa vontade de falar continuamente dos desaparecidos, uma forma de mantê-los “por aqui” mais um tempo. Enquanto nos lembrarmos deles, eles estarão “por aqui”.
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