Os Labirintos das Bibliotecas que se Bifurcam

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Nunca tive o hábito de cultivar uma biblioteca particular. Sempre me servi das excelentes bibliotecas do Instituto Brasil-Estados Unidos, e em especial a da sede desse curso livre de inglês na Avenida Nossa Senhora de Copacabana (a mais próxima de minha casa). Adorava seu ambiente que frequentava desde que comecei a estudar língua inglesa. Ali lia revistas brasileiras e estrangeiras, periódicos e jornais, entre os quais um muito especial, a volumosa edição de domingo do New York Times, que chegava com algum atraso, mas chegava (tinha a do Washington Post também e depois chegaria a do famigerado USA Today). Vasculhei muito as estantes com os livros da coleção dessa biblioteca e sabia onde encontrar a grande maioria dos autores e livros que procurava.

Só muito no começo recorria aos registros catalográficos que, dispostos em caixotinhos de fichas à entrada, guardavam os dados sobre sua coleção de livros. Para se pegar uma obra então era preciso assinar também uma ficha de anotação de empréstimo que ficava guardada na parte interna da contracapa de cada volume. Sempre que tirava um livro da estante tinha a curiosidade de saber se ele era muito ou pouco lido, quem o tinha pego por empréstimo (podia ser algum colega ou professor conhecido), quando o tirou e quanto tempo permaneceu com ele. Na Biblioteca do Instituto Brasil-Estados Unidos tinha a assessoria das bibliotecárias Almerita e Regina que sempre, por cortesia, me levavam rapidamente às obras que encontrava maior dificuldade em saber aonde estavam. Ao contrário da maioria das pessoas, gostava e gosto de livros anotados. Acho interessante saber o que despertou o interesse do leitor que me antecedeu na leitura de um livro. Tanto assim que segui com o hábito de sempre deixar anotações nos livros que leio. Hábito que mantenho até hoje. Principalmente porque quando a leitura visa à preparação de algum estudo, estas anotações são fundamentais.

Quando enveredei pelos cursos de mestrado e de doutorado, meus livros passaram a se multiplicar e comecei a recorrer menos à biblioteca da sede do IBEU (nesta altura já tinha virado freguês também de várias outras bibliotecas, como as da PUC-RJ (a central e a de cada departamento), da UFRJ e da nossa Biblioteca Nacional, obviamente). É que passei a receber uma tal de “bolsa de bancada”, que nada mais é do que um dinheiro para se adquirir exclusivamente livros (com contas a serem prestadas às instituições de fomento de pesquisa que proveem essas bolsas). Foi aí que me vi tendo de comprar livros em quantidade todos os meses.  Alguns ficaram com excesso de marcas, anotações, códigos que criei com canetas de diferentes cores, para poder, numa segunda leitura, achar o que julgava importante de maneira rápida. Sei que estudiosos dedicados fazem essas anotações em fichas, mas nunca tive paciência para isso.

Se alguns livros adquiridos com a bolsa de bancada foram escrutinados em detalhe, outros nunca foram tocados. Vim a me dar conta disso agora. Sempre guardei meus livros espalhados em prateleiras pela casa de forma totalmente aleatória. Sabia onde encontrar os autores que procurava por pura intuição. Recentemente resolvi cuidar melhor deles e comprei uma estante maior para ordená-los e estabelecer alguma organização no caos. Meus livros não são muitos, mas pra mim são mais do que o suficiente. Tenho certeza que muitos vão ficar por aí sem nunca terem sido tocados. Ao pensar sobre como organizá-los, descartei logo a ideia de ordem alfabética, porque não tenho e nem pretendo ter livros em quantidade o bastante para isso. Não sou e nunca serei um leitor voraz (e com dinheiro no bolso) como o Umberto Eco que vive em meio ao gigantesco labirinto de estantes de sua casa em Milão.

Escolhi então um certo “critério de afinidade” para agrupar os autores de quem tenho um número mais expressivo de volumes. Assim Machado de Assis abre a estante bem no alto com muitas e diferentes edições de suas obras. A estante segue com toda a obra crítica machadiana. Nessa hora, cada comentarista da obra de Machado entra com todos os volumes de sua produção. Alguns tem foco em Machado, como Roberto Schwarz e John Gledson, e outros permaneceram com seus livros mesmo que tenham escrito pouco sobre o bruxo do cosme velho. De qualquer jeito, Schwarz e Gledson devem se sentir em casa ao lado de Antonio Candido, José Paulo Paes, Otto Maria Carpeaux, Wilson Martins e Marlyse Meyer.

A minha segunda coleção significativa de obras é de e sobre Nelson Rodrigues, assunto dos meus estudos de doutoramento. Nelson está no alto e no centro ao lado de Machado. Com Nelson estão seus livros, os de seu irmão Mario Filho, os trabalhos críticos sobre sua obra e ainda incluí volumes que tratam sobre o período turbulento em que o autor viveu, como os tomos de Elio Gaspari. Ao lado de Nelson Rodrigues e também no alto, aparece Herman Melville (Machado, Nelson e Melville fazem a tríade de meus autores prediletos), que, inevitavelmente, divide espaço com Joseph Conrad e com Edward Said, cujo primeiro trabalho foi sobre o autor de “Coração das Trevas”. Joyce, outra grande paixão, aparece na estante com seus conterrâneos, Oscar Wilde, Yeats, Bernard Shaw e ainda com Virignia Woolf, Lewis Carroll, Auden e Dickens. Euclides da Cunha abre uma nova estante. Com ele estão Guimarães Rosa, Glauber Rocha e a turma do Cinema Novo. Gilberto Freyre é o primeiro nome na estante dos antropólogos, que tem ainda Darcy Ribeiro e Lévi-Strauss. Pedro Nava ficou responsável por comandar uma outra seção. Com ele coloquei seus amigos, Mario de Andrade, Gastão Cruls e um de seus escritores mais queridos, Marcel Proust, que aparece na primeira edição da recherche em português (ficou da coleção dos livros de meu avô materno).

Na estante abaixo de Nava, vem Ana Cristina César, achei apropriado os dois suicidas ficarem próximo para darem apoio um ao outro. Ana C. puxa a estante de novos autores com ex-colegas de bancos universitários e de faina profissional como Bernardo Carvalho, Fausto Fawcett, Hermano Vianna, Arthur Dapieve, Rogério Durst, Sérgio Rodrigues e muitos outros. Há ainda um espaço só pros poetas (Drummond, Pessoa, Cecília Meirelles, Bandeira, Cabral, Gullar; tenho falhas de leitura aqui pois não entendo muito de poesia, assim, Jorge de Lima e, desculpe, Sheila Kaplan, Murilo Mendes, estão ausentes), incluindo aí a nova (Geraldo Carneiro, Paulo Henriques Britto) e novíssima geração (Angélica Freitas). Deixei ainda um lugar de destaque no alto para as obras completas do inventor de todos, Liam Shakespeare. Liam acabou ganhando a companhia de Rimbaud e dos livros sobre teatro antigo e moderno. Ruy Castro aparece ao lado de seus companheiros Sérgio Augusto, Paulo Francis, José Lino Grünewald e João Máximo. Umberto Eco ficou, imagino que sem estranhamento algum, com os franceses (Sartre, Foucault, Derrida, Deleuze, Ricoeur e Bourdieu). Finalmente temos as seções para obras de variedades (guias turísticos, xadrez, uma paixão antiga que voltou) e para as biografias.

Há uns anos fui à Biblioteca do IBEU de Copacabana para uma visita. Grande decepção, já sabia que Almerita e Regina haviam sido dispensadas e não estavam mais lá há muito tempo. Triste foi ver que o IBEU continua mandando embora tudo o que tinha de mais importante. Assim, muitos dos livros que consultei com gosto sumiram das estantes. A modernização da biblioteca significou a redução de pessoal especializado e de sua coleção de livros. Uma pena.

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About Marcos Pedrosa de Souza

Marcos Pedrosa de Souza é professor da Fundação Cecierj. Tem formação em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e em letras pela Universidade Santa Úrsula. É mestre e doutor em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi colaborador de O Globo e de outros jornais e revistas. Foi professor do IBEU, da Cultura Inglesa e da Universidade Estácio de Sá.
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3 Responses to Os Labirintos das Bibliotecas que se Bifurcam

  1. Avatar de sousaalmerita sousaalmerita disse:

    Marcos:l lindo texto, aliado a sua genialidade intelectual.
    Voce descreve um periodo de nossa vida quando, atraves do acervo
    Da biblioteca do IBEU, podiamos contribuir para a formacao
    Intelectual dos diferentes leitores que nos procuravam.

    Lembro do seu sorriso e da forma concentrada que mantinha,
    Sempre que queria “alimento para o espirito.

    Nosso pais precisa de profissionais como voce que, com humildade
    Expoe sua estante de livros. Isto da excelente oportunidade
    Aqueles que desejarem conhecer o pensamento dos autores
    Mais brilhantes da literatura e com eles aprenderem o valor
    De ver o mundo escondido nas paginas de suas obras. Parabens !!

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  2. Avatar de Margarida Margarida disse:

    Adorei. Porque você não faz uma síntese e manda para o Prosa e Verso. Ia dar um texto muito melhor do que a maioria que habita por la. Quero visitar. Deixar passar o jogo e vou almoçar aí e dar uma olhada.

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